quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

EXPERIÊNCIA NA ITÁLIA E EM WEIMAR



Fui morar na Itália porque havia solicitado trabalhar como assistente social trainee na Cáritas; um padre italiano, amigo meu, ofereceu essa oportunidade. (Tenho ensino superior incompleto em Serviço Social). Mas a verdade é que eu queria me encontrar, conhecer o mundo e me ver além do limite de minha carreira de atriz. 
Nunca havia tido pausa em meu trabalho, nunca havia tirado férias, estava cansada e confusa, não tratava mais a depressão e estava deprimida novamente, não aguentava essas recaídas na escuridão inútil da depressão. E, quando me dei conta de que estava falando bobagens em programas menores na TV, acordei para a real: essa não sou eu!  Estou perdida de mim! 
Resolvi ir para a Itália sozinha. 
Minha filha já estava lá numa turnê de músicas e danças afro brasileiras e seguia sua vida na Europa, junto com seu grupo e empresário, morando em Anzio. Eu fui morar em Ferentino, cidade próxima de Roma.  Matriculei – me num curso de artes cênicas na Cinecittà.
Tive momentos maravilhosos na Europa, mas a diferença de cultura agravou a minha depressão. Eu estava bem, tinha cidadania e salário suficiente para viver, morava numa bela casa, gente inteligente como amigos e mesmo assim ainda não estava feliz. Procurei um psiquiatra italiano, o padre liberou – me para tratamento e sugeriu que eu fizesse uma turnê pelo Velho Continente, indicou lugares maravilhosos. O psiquiatra concordou com o padre e eu aceitei, mas  dentro de mim, a raiva por ser dominada por uma doença corroía, maltratava. 
Então decidi: Se minha alma, minha mente, meu cérebro e minha genética querem sofrer, ser triste, então toma sofrimento!
Marquei uma turnê pelos campos de concentração nazistas. 
A começar por Buchenwald, que fica próximo de Weimar, pois queria visitar o museu de Nietzsche e conhecer a cidade de Schiller. Depois fui para Birkenau, Auschwitz, Treblinka etc. 
Foi uma sangria essa turnê. 
Em Weimar, fiquei uma noite toda no Market Platz, sentada no sereno gelado, estava muito frio e eu queria chorar e chorei muito, chorei por mim, pela princesa italiana que morreu em Buchenwald e por todo mundo que sofreu injustamente naquele Campo. Continuei a turnê e fui para a Polônia. 
Chorei de novo, quase me afoguei em lágrimas numa sala onde se veem roupas, cabelos e pertences das vitimas, percebi que a dor, sofrimento, desespero, não é punição, apenas acontece,  indistintamente, para gente boa ou ruim, rica ou pobre, velho ou criança. Não há culpa, não há pagamento de erros. 
O ser humano sofre porque é natural que se sofra neste mundo, é tão normal quanto nascer e morrer. 
Perdi a fé em crenças naquele instante e fiquei aliviada das culpas judaico cristãs ancestrais. Senti – me bem mesmo, leve e, finalmente, estava em minha casa interior. 
Voltei, depois de quase 2 anos, para o Brasil. Trazia na bagagem uma experiência riquíssima. Tinha me aperfeiçoado como atriz nos cursos do Studio Cinecittà, me aperfeiçoado como ser humano na Europa,  principalmente na turnê pelos campos nazistas.  
Continuei meu tratamento contra a depressão na Unicamp. Pouco tempo depois, percebi que minha perna estava entortando e doía insuportavelmente, achei que ficaria aleijada, procurei um médico clinico, fiz exames e nada. Guardei segredo desse fato, era algo que ou iria se resolver ou eu iria enfrentar e pronto. Falei com meu psiquiatra, Dr Bruno Raposo, quase que por falar e disse que estava pronta para a deficiência física que parecia - me iminente. Ele sorriu e disse: acho que solucionamos seu problema de depressão. Pediu um exame de Dosagem de B12. Na sessão seguinte, veio me encontrar muito feliz. Explicou que eu não tinha nenhuma B12 no organismo, perguntei se era pra rir ou chorar. Claro que ali estava um dos motivos de minha depressão, talvez o mesmo motivo que meu pai, meus tios e meu avô tinham, falta de B12 no organismo. Reponho a vitamina até hoje, tomo meus remédios e entendi que, para algumas pessoas, como eu, por pior que seja o momento, o melhor das coisas sempre aparece. 
Voltei para a vida após as noites sombrias. A melancolia estava superada depois de tanto tempo. Liberdade, enfim. De volta ao meu colo, retomei o amor que havia perdido de mim mesma. Tomei consciência que a tristeza anda de braços dados com a alma, não adianta ir para longe, ela vai contigo; o caminho para se libertar é soltar o braço daquilo que causa agonia. 
A busca sempre encontra resultados. Eu busquei a mim mesma, flagelei minha alma, encharquei de lágrimas o chão do Market Platz em Weimar, torturei minhas noites com as imagens de  sofrimento desumano e sem explicação nos campos nazistas; vi sapatinhos infantis de um menino que não teve tempo de chegar em seu futuro; tufos de cabelos que um dia foram penteados pelas mãos de uma mãe. Entendi que todos somos frágeis - não somente eu, mas todos nós. Todos sofremos, mas há bons momentos para alguns e, infelizmente, final infeliz para outros.  
Em Ferentino, na minha volta da turnê do coração rasgado, abracei o padre, despedi - me do psiquiatra italiano e depois de afagar a cabeça peluda do Bisogno meu cãozão italiano que a vizinha me "emprestava" para afagos eu sorri. A vida é cruel, isso pode ser verdade, e é. Contudo a menina alegre que sempre fui voltou ao Brasil. 
Voltei e estou sobre meus pés, feliz, risonha e cheia de vida, de poesia, serenidade e com uma certa ironia no olhar e desembaraço na cabeça.
No coração, um fio de dor e um mar de respeito pela injustiça do sofrer alheio.