domingo, 22 de janeiro de 2012

PORNOCHANCHADA - Ody Fraga. Trecho do meu livro A BOCA DE SÃO PAULO.

ODY FRAGA
O

 Ody Fraga era egresso da Torre de Babel: falava todas as línguas ao mesmo tempo.

Escolhi um trecho da tese de Nuno de Abreu sobre ele. Acho que o Nuno conseguiu captar, melhor do que ninguém, quem foi essa figura querida e genial. 
“Conheci Ody Fraga no início da década de 80... Os primeiros contatos me deixaram surpreso. Algo estava deslocado. O que é que Marx, Freud, Sartre tinham a ver com a Boca? A prosa geral do cotidiano artístico não ia muito além do jogo cinematográfico: a urdidura fílmica e seu comércio. Nesse universo, o papo de Ody era atípico. Ele expunha com grande clareza e invocava todos os pensadores do ‘Olimpo acadêmico’ para justificar as posições mais polêmicas. Com a aproximação de outras pessoas – e a Boca é um entra-e-sai constante – a prosa tomava a forma da maioria e lá estava o Ody envolvido nos assuntos mais prosaicos de seu ganha-pão. Mas sempre com as mesmas características: mordaz, picante, reticente, cheio de entrelinhas, afagando de baixo e chutando de cima. Enfim, um intelectual. Quando a Rua do Triunfo começou a gerar um produto sem dissimulações, o chamado ‘sexo explícito’, para atender a demanda do público que adora ver aquilo que é terrível ser, Ody creio, vacilou. Ele ria compreensivamente das milhares de famílias, papais e mamães respeitabilíssimos, que se deleitam vendo no videocassete vídeos sacanérrimos. Essas famílias não convidariam Ody pra jantar (e acho que ele nem iria). O pungente, o tragicômico eram situações por onde Ody andava com freqüência. Mas a realidade da Boca trazia-o à terra e ele falava de A Fome Do Sexo ou de Senta No Meu Que Eu Entro Na Sua fazendo alguma referência a Nietzsche para elucidar algo. Ou pipocava um Aristóteles referindo-se a Noite Das Taras. Poderia citar Darwin para comentar Mulheres Taradas Por Animais, com a maior desenvoltura, ia do arrepiante ao sublime, do infame ao nobilíssimo, transitando pelo abjeto como se fosse muito puro. Ele podia ser tudo, menos maniqueísta. (...) mas ao que consta nunca sentiu nostalgia da universidade: era apenas um intelectual militando no cinema da Rua do Triunfo, sem separar os horários e sem trocar a máscara. ...” (ABREU, 2000:134-135).
Curiosidade: no filme de sexo explicito Senta No Meu que Eu Entro na Tua, roteirizado e dirigido por Ody, uma vagina adquire voz e consciência e é a primeira vez que se tem conhecimento do monólogo de uma vagina.
O Ody escreveu e dirigiu várias pornochanchadas. Embora fosse cáustico, também era afável, um amorzinho. Não dava para imaginar que aquele tiozinho fofo escrevesse as frases mais célebres e contundentes que ficaram na memória de muitos. Morro de saudades dele e me enterneço ao ver que muitos ainda se recordam desse homem incrível. Muito inteligente, sábio, cortês e carinhoso, de espírito irônico, mas agradável. Um intelectual debochado, como alguns escritores franceses do séc. XVIII. Difícil definir gente como ele, tão especial. Somente recorrendo ao campo filosófico conseguimos ter uma pálida idéia de tão singular alma.
Hedonista? Talvez. Autêntico? Com certeza.
Fumava feito desesperado. Lembrar do Ody é lembrar de um cigarro acesso entre os dedos finos de um homenzinho magro e meio encurvado. Respeitadíssimo pelas equipes e amado pelas atrizes. Dava vontade de te – lo como parente na família. Seria um parente meigo, mas excêntrico. Um tormento e uma alegria. De qualquer maneira, um privilégio.
Gostava de mim, certamente. Não conversávamos muito, mas ele me olhava nos olhos, sem me deixar deslocada, de forma alguma. Segurava meu braço para dizer alguma coisa e neste gesto havia algo familiar, afetuoso. Toda vez que me via passar fazia um aceno, com um sorriso agradável e um cigarro nos lábios. Outras vezes acenava – me com o cigarro em meio aos dedos, sempre sorrindo. Seus olhos acompanhavam meu passeio. Eu voltava a cabeça para trás e pegava ele no flagra. Sorria, eu sorria e pronto. Era só isso, mas fazia um bem tremendo. De vez em quando, ele abaixava os olhos daquele corpinho franzino e arqueado e parecia entrar numa outra dimensão. Um ar impenetrável, distante e algo melancólico emanavam de seu ser. Mas era um minuto só, um segundo talvez, não sei, mas marcava e angustiava a gente como se somente ele soubesse certos segredos da vida.
Acessível a qualquer conversa, aliás, entendia de tudo, conversava sobre todos os assuntos e sempre se destacava pela argúcia e sabedoria, sem afetação. Não discutia; debatia as idéias. Se o interlocutor fosse menos letrado não se sentia humilhado, se fosse culto, sentia - se encantado. Prestativo e generoso auxiliava de algum jeito, qualquer pessoa que o procurasse. Pronto a colaborar com outros cineastas, produtores e atores, jamais deixando alguém sem uma resposta positiva. Era cortês com a pivetada sem sorte que vagabundeava por lá, gentil com os travestis e prostitutas, compreensivo e amigo com os “barra – pesada”. No entanto, conquistava com seu intelecto qualquer um pertencente à classe mais favorecida.
Parecia que o Ody “habitava” a Boca por livre e espontânea vontade. Poderia ter saído dali e vivido como um ser humano dito normal: professor, produtor de TV, escritor, autor de novelas, etc. e etc., qualquer profissão que quisesse, mas o Destino ou decisão própria o colocou ali e era ali onde ele parecia se sentir bem e, também foi neste mesmo local que escolheu morrer, na Rua do Triumpho, em plena Boca do Lixo, aos 59 anos de idade, devido a complicações pulmonares.
E, claro que não podia ser diferente, foi da boca dele que ouvi o nome Nietszche, pela primeira vez. Achei curioso e guardei de memória. Alguns bons anos depois, lendo Zaratustra, agradeci mentalmente ao meu diretor querido por ter citado o filósofo alemão em minha presença, na mesa de um bar, daquela Rua. Quando visitei a cidade de Weimar, em 2004, onde Nietszche faleceu, senti não ter o Ody ao meu lado.
trecho do meu livro A BOCA DE SÃO PAULO, publicado apenas no site www.clubedeautores.com.br





 ODY FRAGA E WALTER HUGO KHOURY, DOIS AMORES, QUE GOSTARAM DE MIM E EU DELES.