domingo, 22 de julho de 2012

A doença

- Estamos em meio a uma epidemia! Eles não querem divulgar, mas é necessário falar, alertar. Uma epidemia devastadora, pior que câncer. Pior que Aids.

Após falar isso, me calei. 
Todos na mesa olhavam pra mim como se eu fosse louca ou  uma pobre coitada. 
Era um restaurante fino, desses reservados aos ricos muito ricos. 
Eu era a dissonância.
MAS, sou tinhosa. Insisti.
- Vocês não acham? Não podem fazer alguma coisa?
Compassiva, dirigiu - se a mim, uma moça muito fina. (Tudo é fino nesses lugares: as mulheres são finas, os homens são finos, garçons finos e, eu, fazendo a grossa. Dissonância total)

- Não devíamos falar sobre isso num jantar.
Mas, a finesse da moça fina me estimulou a criar caso.

- Eu acho que é aqui mesmo, nesse jantar incrível, com tantos animais mortos à mesa, com tantos vivos comendo os mortos, que me trouxe à memória essa doença. Essa epidemia.

- Por favor, cale - se. - Falou um senhor de roupas finas do Ermenegildo Zegna. Vá lá, ele não foi fino.
- Onde o senhor trabalha mesmo? Falei, com tola arrogância e nenhuma sensatez, pois, quem não sabia onde o elegante senhor, de roupas finas do Zegna, trabalhava? Todo munda sabia.
Ele se mostrou educado dessa vez e levantou - se.
- Vou cumprimentar o ministro que acabou de chegar. Com licença.
Na mesa, mal estar. Silêncio. Minha presença era insuportável naquele ambiente. 

Impávida, ( não consigo encontrar outra palavra que melhor se encaixe na minha atitude insaníssima), peguei meu prato e o prato da pessoa ao lado e saí.
- O senhor de terno Zegna vai pagar pelos pratos. Ele esta com o nosso dinheiro, mesmo.
O garçom fino olhou para o senhor fino, viu que era muito influente, ficou indeciso, mas com um fino aceno de cabeça o senhor fino me liberou para sair com os pratos, que eram muito finos.
A friagem da noite me chamou de burra!
Eu me chamei de burra, o mundo me chamava de burra.

No caminho de casa depositei os dois finos pratos na rua para um cão magricelo e amedrontado, que, sem confiar naqueles que o puseram lá a chutes e pontapés, aproximou - se somente depois que eu me afastei.
O cachorro comeu tudo. Olhou em meus olhos, barriga cheia, perdoando em mim todos as agressões sofridas e agradecido, me pediu.

- Me leva com você.

Abanou o rabo sem jeito e, tolamente confiante aceitou vir ao meu colo.

Em meu apartamento, de madrugada, dei um banho morno no cão. Não gostou muito não, mas aceitou passivamente, embora tenha rosnado para não perder a dignidade. 

Com o cachorro dormindo aquecido, cheiroso e o banheiro imundo, olhei pela janela e vi a vida.
A cidade tão linda. A vida tão linda estava se extinguindo devido a uma epidemia que teimamos em não combater, em não fazer nada. 
Quando apostamos em alguém que imaginamos poder curar essa doença maldita, vemos estarrecidamente que esse alguém foi contaminado e abriu uma conta em Liechtenstein.