quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Enquanto a beleza se vai....

                    
     Enquanto a beleza se vai....     
 1990


“Eu vi muitos cabelos brancos na fronte do artista”
Caetano Veloso

A minha beleza física nos tempos de criança, jovem e até na idade madura foi uma benção conjunta de Vênus e Afrodite.
Não, não me julgue metida, arrogante e nem vaidosa, precipitadamente.
Eu tenho fotos que mostram isso.
Se não fossem minhas as fotos eu diria que, de fato, a moça que vejo em fotografias foi uma mulher muito linda.
Mas... (Esse mas... é um desassossego na vida de todos os seres humanos.)
Mas, continuando: vejo a vida, o tempo, a marcha inexorável dos dias levando toda essa beleza em seus passos lentos, porém firmes e determinados em direção ao Único Destino verdadeiramente democrático na vida de toda a gente, rico ou pobre, branco ou negro, dessa ou daquela raça, bonita ou feia.
Aceito essa “democracia” fatal sem medo, de forma tranquila, pois encaro como natural (de natureza mesmo) e tenho uma certa ansiedade pelo o que pode vir depois. Eu acho que o depois ou é muito legal (no sentido de justo e bacana) ou não é nada (em todos os sentidos) e, assim, mantenho a chama curiosa e divertida de querer saber no que vai dar essa loucura ou palhaçada (em todos sentidos também) que é a Vida.
Eu amo a vida. Amo estar viva, amo a natureza toda. Amo até os que não merecem, mas, esses eu amo à distância, pois rancorosos de alma e psicopatas, embora façam parte da humanidade, deveriam ser mantidos isolados de gente que só quer ser feliz.  Mas, essa é uma outra questão.
Estava falando da beleza que vejo escorrendo em minha face nos espelhos de meus 54 anos. Nasci em 17 de maio de 1958, uma data feliz, segundo meus progenitores, apesar da minha mãe ter sido internada devido às complicações durante minha gestação; apesar disso, ela me amou muito, me levou com ela para o hospital e lá ficamos somente nós duas abraçadas durante mais de um mês. Acredito que esse tempo desfrutado ao lado daquela belíssima mulher foi importante para me acalmar da euforia em que eu devia estar envolvida devido ao meu nascimento nesse planeta.
No entanto, agora, voltando ao espelho, vejo minha beleza murchando, se apagando, mesmo com algumas vantagens em relação a muitas outras mulheres. Ainda sou “pancosa” como meu pai costumava falar de mulheres em plena perda digna da juventude.
Dar pancas
1 Bras. Pop. Destacar-se em algo.
2 Ser motivo de admiração (ger. devido à beleza, elegância etc.).
 
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Mas...
Incrivelmente, estou feliz com isso! Pode? Pode sim.  Gosto de novidades da vida. Eu me surpreendo alegremente com cada ruga, cada pelanquinha, cada marca, dorzinha não sinto, disposição? É a mesma preguiça gostosa de sempre ao ladinho de uma vontade de viver sorrindo.
Muita gente acha que eu sou brava, não sou. Exceção: Não maltrate animais, nem idosos, crianças ou pessoas de posição social desfavorecida. Aí viro fera. De resto, sou a mais pateta das pessoas, desligada, pagadora de mico, faladeira, meio tola, enfim, bem mais normal do que se possa pensar.
Um dia na Itália, em Ferrentino onde morei, o dono de uma padaria ma-ra-vi-lho-sa, perguntou-me porque eu ria a toa e toda hora. Eu respondi: Eu gosto, minha mãe era assim, sou brasileira, amo a vida, to com um cazzo de depressão, quero voltar ontem pro meu país e seu pão é divino!
O mal-humorado italiano passou a me cumprimentar sorrindo.
...Vejo que estou enrolando muito para falar que envelheço sim, como acontece com todos os humanos que não morrem jovens, mas algo está ocorrendo dentro de mim. Sei lá, eu sinto que estou mais bonita hoje do que antes. Sinto que a beleza de minha mãe quando velhinha era muito maior que a beleza mediterrânea de uma mulher de longos cabelos lisos, lindos lábios, voz rouca e cobiçadíssima, segundo meu pai. Ela o escolheu devido aos olhos verdes, cabelos loiros,  coragem e bondade. Ele a quis por sua alegria contagiante. Bom, isso foi o que meus pais me contaram.
Então, eu sinto como se estivesse embelezando nos últimos anos, apesar da tintura dos fios brancos e da chamada de Newton (lei da gravidade. Tudo cai), mas estou mais bonita hoje do que antes. E, agora, essa beleza não é facilmente vista, não é desejada, nem invejada por homens ou mulheres. É uma beleza tão minha, tão existida e contudo poucos a vêem. Mas, os poucos que enxergam essa beleza em mim são os que mais amo e que mais me amam. Essa beleza atual não é mais volátil, foi conquistada e é para sempre.  
Eu estou ficando velha, mas a cada dia mais bonita.
 2012