segunda-feira, 4 de novembro de 2013

CRIANÇAS NEGRAS, CACHORROS E GATOS PRETOS NÃO SÃO ADOTÁVEIS?

As pessoas se sentem meio santas quando falam no desejo de adoção, seja de seres humanos, de cachorros ou de gatos.
Eu, particularmente, acho uma coisa santa mesmo a ideia de adoção. Há algo de desapego, de amor incondicional, de amor ao próximo, até... bom, até a segunda página: a página da hipocrisia.
Alguém quer algo para si, desse jeitinho e não daquele. Dentro de seus parâmetros de estética, de socialmente bem aceito, de sei lá o quê... Enfim, resumindo:
A hipocrisia se revela no desejo egoístico de se obter apenas filhos loirinhos, de olhos claros e obviamente recém nascidos. 
Quem não amaria um filho assim, não é mesmo? Afinal a sociedade irá aprovar a estética não brasileira do adotado, contudo, a realidade dos que esperam para ser adotados é bem nacional, composta da estética nacional, que pode não ser bela aos olhos dos egoístas desejosos de filhos arianos. 
A realidade é que os abrigos estão lotados de meninos e meninas de várias idades e de cores variadas, apenas unificados pelo flagelo do abandono e maus tratos. Crianças que não têm culpa de terem nascido com olhos escuros e crescerem rejeitados pelos "santos" desejosos de salvar a humanidade quando esperam anos numa fila complicada de BEBÊS de estilo europeu, bem longe da nossa realidade tupiniquim.
Quero ver o amor em adotar uma criança que dorme num leito impessoal, vendo os dias desfilarem cruelmente ao seu lado, olhando pela janela da desesperança e completamente sozinhos nesse mundo de gente boa que deseja adotar gente branca.

E os cachorros? E os gatos?

Claro que prefiro que adotem as crianças que sofrem na triste esperança de um lar, mas como acontece com as pobres crianças rejeitadas pelos "santos de plantão", também acontece com os animais.
É hipocrisia pura!

Todo mundo é o grande defensor de cães e gatos! Então querem adotar os Beagles, de preferência um filhotinho. 
Eu me especializei em doar cães de raça que eram abandonados no portão do Abrigo da Dolores. Doei muitos e muitos com facilidade, até que, cinco cadelas velhas ficaram paradas por meses sem pretendente nenhum e por quê ninguém quis adota - las se eram de raça? PORQUE SÃO VELHAS! Moram comigo. Nunca mais ninguém irá rejeitar essas idosas! Chega! 
Tem gente que tem o descaramento de me dizer que quer adotar um cachorro, pois ama animais, mas que deseja adotar um ShiTsu, filhote e que já saiba usar o jornal. Faço minha cara de Feliciana da novela Amor e Revolução e basta! 
E gatos? Os pretos dificilmente são adotados, exceção de quando alguma sexta-feira 13 se aproxima, mas os protetores já sabem dessa artimanha maligna e poupam os negros gatos da má sorte e não os disponibilizam para adoção nessas datas nefastas.

MINHA ALEGRIA SE TRADUZ NOS BRAÇOS DE VERDADEIROS PAIS ADOTIVOS QUE ESCOLHEM PELO CORAÇÃO E NÃO PELA ESTÉTICA. A ESSES PAIS HERÓIS MEU RESPEITO E ADMIRAÇÃO.

Nem gato nem cachorro preto é adotável.
Nem criança negra é adotável.

QUE AMOR É ESSE QUE ESCOLHE COR?

REFLITAM AO OLHAR ESTA IMAGEM.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Amigos, Jornalistas, Âncoras e pessoas sensatas e inteligentes




Agradeço a todos que me apoiam nesse momento e que entendem o  porquê de respeitar vidas de outras espécies! Obrigada.

MAS AO OUTROS QUE NÃO ME ENTENDEM OU QUE CRITICAM DE MANEIRA TOSCA OS PROTETORES DE ANIMAIS E A MIM, PRECISO DIZER QUE:

1 - Não posso e nem tenho a pretensão de salvar desde elefantes a batráquios. A Natureza é sábia e deve ter tido um motivo para todos estarem vivendo sobre o planeta.
Não posso salvar as crianças, vítimas inocentes, da Síria, a bem da verdade, nem posso salvar as crianças das ruas e periferias de São Paulo.

2 - Há 20 anos, trabalho com salvamento de animais de rua, seja gato, cachorro ou pássaro, mas, em sua maioria é cachorro mesmo. Não esqueçam que estamos em uma metrópole, onde dificilmente se encontra animais como urso, baleias, onças, sapos, rinocerontes etc para resgata - los de maus - tratos. Além disso, meus recursos de atriz fora da mídia não permitem gastos extraordinários a fim de embarcar no navio de Paul Watson, e não possuo nem mais idade nem força física para tal aventura.

3 - Tenho consciência tranquila de nunca ter ficado com, digamos, o bumbum... bunda mesmo, pregada no sofá ou numa cadeira de funcionário bem pago e criticar atos dos outros sem buscar informação diversas e imparciais de gente mais instruída. Essa posição é  cômoda e egoísta, mas coroada de benefícios, pois lançando petardo sem arredar a bunda do sofá gosmento, dá -se a impressão de estar fazendo algo pelo mundo, afinal, esta posição confortabilíssima faz com que se sintam num trono alto, de onde pode - se comandar exércitos de mediocridade e ignorância e mesmo assim, sentir - se o centro do universo. 

4 - Sou apenas uma ex-atriz de pornochanchada de 55 anos, que se preocupa com os seres humanos e outros seres vivos. Apenas isso. Mas, devido à internet e por ser alfabetizada em colégios do Estado nos anos 70, eu pesquiso, leio, mudo de opinião quando vejo uma diferente e mais coerente do que a minha. Sou flexível. Não sento no sofá destilando veneninho invejoso a esmo. Meus dentes não possuem sulcos inoculadores e flexiono minha "bunda e pernas mentais" a fim de entender melhor o mundo.  

Quem faz, não fala, mas, fala sim quando é necessário. 
Então, acho necessário falar agora:
Na década de 80, tive muito dinheiro, ajudei na construção do "Centro de Convívio e Habilitação para Excepcionais Maria José" em Parelheiros, São Paulo.
Participei da reforma do Centro de assistência Social do Grupo Paz e Amor em Jesus, no Tatuapé, perguntem ao sr Abílio, presidente do Grupo na época.https://www.facebook.com/abilio.depaulasoares?fref=ts
Percorri ruas do centro da cidade de São Paulo, juntamente com voluntários da LBV, no atendimento à moradores de ruas, entre eles, meu filho amado do coração, Maurício, que teve de partir muito cedo, aos 25 anos quando ia se casar,  devido a complicações pulmonares pela longa exposição ao relento.
Trabalhei como voluntária na Febem e lá fui presenteada com outro filho do coração, que não pude adotar, pois eu era solteira e não era permitido naqueles dias adoção por mãe solteira.Encontre - o no FB, 
ou no Twitter https://twitter.com/ronigalvao Um filho que vive independente de mim, mas pelo qual me culpo (coisas de mãe) por não poder ajuda - lo devido aos meus recursos escassos .

PORTANTO, 
1 - NÃO EXIJAM DE MIM MAIS DO QUE ESTÁ ALÉM DA MINHAS FORÇAS!

2 - NÃO ME CRITIQUEM SEM LER ISSO ANTES.


3 - Vão para a p... para o inferno quem desdenha ou pensa que quero aparecer de qualquer jeito na mídia. Sejam mais criativos.
Reparem a data de 80 que coloquei no relato, para deixar claro que minhas decisões pessoais só vem a tona agora, pois quero dizer que:
HOJE EU CUIDO DE QUEM NÃO TEM CORDAS VOCAIS IGUAIS ÀS NOSSAS, PORQUE EU DECIDO A MINHA VIDA E NÃO A RAÇA MEDÍOCRE ATROFIADA E ATADA AO SOFÁ CONFORTÁVEL. 

Criticas de sofá é tacanhice de espírito

Agradeço a todos que me apoiam nesse momento e que entendem o  porquê de respeitar vidas de outras espécies! Obrigada.







sábado, 28 de setembro de 2013

Por que Não solto minha voz?

Tenho coisas atravessadas na garganta!

Queria mandar um monte de gente a m...., mas...
Não consigo. 
Não, não é por medo, nem porque engulo coisas. Quem me conhece sabe que não temo nada e nem engulo nada.
Então por que não solto  minha voz?
Porque não quero me igualar aos mesquinhos que atravessaram minha vida, meus sonhos, meus sentimentos.
Não quero ser cruel como eles foram.

Verdade é que todo mundo sofre crueldade e se não supera cai no abismo da mágoa improdutiva, da tristeza inútil, do ódio que amarga a boca e a alma e da vingança que tira o sossego de nossa felicidade e faz com que vivamos a infelicidade alheia.
Não, eu não sou assim. 
Não sou boazinha, mas não sou tola. Tenho tanta coisa boa ao meu redor. Tanta gente boa que amo e que me ama, tantos animais para cuidar.
E, 
não vou dar a oportunidade de outra pessoa determinar meus dias nublados ou ensolarados.
Eu faço a minha Bem aventurança. 
Eu faço o sol brilhar em meu caminho.

Todo mundo é perseguido, injuriado, sacaneado e agredido. Quem nunca foi? 
Tanta gente sofre ou sofreu mais do que eu.
Porém, eu tenho certeza de uma coisa
NUNCA sacaneei, persegui, injuriei nem agredi ninguém... Acho que é por isso que sou, simplesmente, feliz, desbocada, debochada e mando quem tem essas tristes metas na vida para o inferno dos invejosos. 

OLHA NA FOTO A MINHA  PREOCUPAÇÃO COM QUEM SE PREOCUPA EM FALAR MAL DE MINHA VIDA 






Foto by Gina Stocco 2013

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Eu e Walcyr Carrasco

Ano - 1984.
Era o auge de minha carreira. 

Decidi aprimorar meu trabalho, fazer algo para mostrar que eu sabia interpretar. 
Sabe, aquele refrão: Não sou apenas mais um rostinho bonito. - Era isso. 
Eu queria fazer teatro.
Ja tinha feito um infantil chamado "Bizim, o menino do espaço" e tinha gostado muito.

Conversei com minha irmã, Maria Antônia Puzzi, uma mulher extremamente competente e que produziu outros espetáculos com grandes atores como Bibi, Juca, Arlete Salles etc. e a convidei para produzir uma peça para mim. Eu tinha o patrocínio e ela a capacidade de administradora. Deu tudo certo.

 (Alguns anos depois, Maria Antônia enjoou do meio e, sem pestanejar, mudou para Londres, onde vive muito bem, obrigada, e se sente muito feliz em ter uma nova vida afastada da correria maluca que é a vida de uma produtora de teatro.) 

Imediatamente, ela chamou o Renato Scripilliti, um arquiteto simpaticíssimo e que nunca tinha feito um cenário de teatro, para ser nosso cenógrafo. Ele aceitou e sua vida se transformou num sucesso de competência na nova carreira.  

Também trouxe um grande ator, talentoso e competente para dirigir a Nicole, uma atriz estreante. Jacques Lagoa, mais que um diretor, foi meu professor. Ensinou quase tudo que eu ainda não sabia. Ele equilibrou meu tom de voz, ensinou - me a usar o corpo, mediu meus gestos e o mais importante, apresentou - me o melhor texto que li naqueles meses anteriores ao início do ensaio. 
- Nicole, leia esse texto de um excelente autor que precisa de uma oportunidade para estrear como dramaturgo. 
Eu li e Maria Antônia também.  A- ma- mos!
Girei o teclado do meu telefone moderníssimo e liguei para o Jacques.
- É essa a peça escolhida.
- Olha, ele é jornalista, mas tenho certeza que será um dos maiores autores de nosso país.
- Nome estranho o dele, né Jacques? Carrasco.
- Walcyr Carrasco.

No outro dia, conheci o rapaz de nome estranho. Bom, vamos dizer que ele, também, era meio estranho.Tipo CDF, o equivalente a nerd ou geek de hoje.
Óculos de lente e aro grossos, aliás, grossíssimos, que faziam suas pupilas ficarem meio perdidas no espaço.
Educado, fino e displicentemente elegante. Muito distante do sobrenome agressivo. 
Voz baixa, tímido. Um encanto de pessoa.
Acho que ele morava ali na Aclimação, não sei, mas me lembro que era num sobradinho típico paulistano, muito bem decorado para a década de 80. Dava para perceber que cada detalhe de seus objetos, móveis e as cores usadas, era algo muito pessoal. A simpatia por ele foi imediata, percebi no rapaz de óculos estranhos e sobrenome agressivo, um ar do interior misturado ao perfume requintado de cultura e inteligência.

Escolhemos um jovem e simpático moçoilo para fazer um dos personagens. O Jacques garantiu que, embora o moçoilo Ney Galvão fosse um estilista baiano e não ator, em pouco tempo ele faria um excelente trabalho. Jacques Lagoa apostou no Ney e deu certo. Ney se saiu muito bem. 
( Bom, foi por ter inventado um romance de mentira com o Ney para divulgação da peça, que fui perseguida pela ira de um outro estilista que rugiu maldosamente contra mim durante toda sua triste vida. Já perdoei... Mas, isso é outra história e é muito triste, como já mencionei

Walcyr assistiu a estreia de "O Terceiro Beijo" com toda a ansiedade de um estreante. 
SUCESSO. 
Seus olhinhos perdidos no espaço daquela lente descomunal, brilhavam de alegria sincera, espontânea e de realização. 
É divertido e emocionante lembrar o primeiro passo desse grande autor. 
Eu vi a emoção genuína e inédita naquele rosto tímido e reservado. 
Nessa época, eu era a famosa e ele, apenas, um estreante. 
Como a vida é maravilhosa e rica em agradáveis surpresas.
Como devemos respeitar as mãos frias de um estreante. 
Nunca sabemos o futuro. 

A peça O TERCEIRO BEIJO foi uma alegria só. 
Imaginem que o Paulo Autran foi nos assistir e me convidou para trabalhar com ele, no ano seguinte, em um clássico com versos alexandrinos de MOLIERE. 
Uma noite, após a peça, quase fui atropelada, na alameda Santos por um senhor gentil, de boa aparência e que viria a ser um grande político de nossa história e um grande amigo pessoal e pelo qual fui perdidamente apaixonada.

Muitas coisas boas tiveram início após O TERCEIRO BEIJO. 

Estive várias vezes com o autor, sempre reservado, sempre querido. 
Sua carreira decolou, merecidamente. 
Trabalhamos juntos, quase por coincidência, alguns anos depois. 
O Guga de Oliveira, irmão do Boni,  chamou- me para fazer a abertura de uma novela produzida por ele para o SBT, Cortina de Vidro, logo depois, assinei contrato para uma participação e foi aí que eu soube o nome do autor. Walcyr Carrasco. 
Fiquei muito feliz.

Quase "500" anos depois, encontrei Walcyr Carrasco, agora o famoso e bem sucedido autor global, na porta do Teatro Cultura. Ficamos conversando e, percebi que, apesar das mudanças externas, ele continuava o mesmo rapaz tímido de 84. Não mudara. Continuava o mesmo Walcyr, mas seus óculos haviam se aperfeiçoado com a tecnologia da incipiente década de 2000.

De vez em quando, falo com ele pelo FB, Twitter ou E- mail.
Nossa amizade continua.
Ele já falou super bem de mim em duas crônicas na sua página na Revista Época. 
Sabe a alegria que da quando você lê o seu nome citado positivamente numa das colunas mais lida do país, e, principalmente pela pessoa que você respeita e admira desde o século passado? 

Quantas boas recordações que eu tenho! 
Sou feliz por isso. 
Quanta gente interessante e importante cruzaram a minha vida!
Adoro saborear os detalhes que me fizeram feliz em algum lugar do passado.
Por isso, continuo saboreando todos os detalhes da minha realidade atual: gostando de gente, de bicho e de tudo aquilo que representa o tesouro que levamos conosco que são os nossos pensamentos tranquilos, nosso sorriso de lábio quando lembramos a vida cheia de Vida com o qual fomos presenteados.



segunda-feira, 9 de setembro de 2013

OUTRO CONTO DE TERROR. Culto e rico e ...maledicti.

Ele viajou para Sicília, precisamente à cidade de Ragusa, a fim de receber uma herança de uma parente que nem sabia que existia.
Acordara mal, frustrado, preferiria ter uma parente mais ao norte da Itália, não gostava muito do jeito caipira dos habitantes do sul. Arrogante e orgulhoso, só aceitara a incursão na ilha por causa dos bens herdados. Perdera uma pequena fortuna no Cassino de Monte Carlo e a herança inesperada vinha a calhar mas, intimamente, confessava o desprezo pelos matutos de dialeto confuso e hábitos simplórios.
Era um rapaz acostumado a frequentar ambientes requintados e desdenhava paysan. Em qualquer lugar do mundo em que estivesse, optava pela nata da sociedade, afinal era culto e rico. 
Médico importante, mais que um médico, ele era um cirurgião neurológico. É bem verdade que seu nome figurava na folha de pagamento de um hospital público de uma cidadezinha do interior da Paraíba, mas a realidade é que ele realizava cirurgias em vários hospitais do mundo, somente de pessoas importantes, escolhidas a dedo. Obviamente não realizava cirurgia em qualquer um que viesse ao seu encontro. Dava comichão encostar em gente pobre e feia. Ele podia e escolhia seus pacientes.

A visão do Castelo de Donnafugatta, através da janela da casa que alugara em Ragusa, não despertava nele nenhum tipo de apreciação artística. Orgulhava - se de seus conhecimentos arquitetônicos e o Castelo de Donnafugatta, além do nome horroroso, era bastante acanhado.
- Nada se salva nesta cidadezinha. - Rosnou contrariado - Vou assinar a papelada e sair daqui o mais rápido possível.

Tola esperança.

Ele não entendia porque a carta de notificação da herança estipulara sua ida sem advogado e sem acompanhante. Essa era a condição imposta pela testadora, a velha senhora sua parente, segundo o tabelião que o notificara. Era um testamento público, o que provavelmente atestava a incapacidade de ler e escrever de sua aparentada desconhecida.
- Agora seus Euros terão um destino mais importante.
Já caminhava em direção ao cartório da cidade, quando um arrepio escorreu pela sua espinha feito uma gota gelada. Estancou. Teve vontade de sair correndo daquela cidade, mas abanou a cabeça afastando pensamentos supersticiosos. Pensou nos Euros a receber e prosseguiu sob o sol mediterrâneo sem saber que andava em direção ao seu trágico e assombroso destino.  

Um pouco mais tarde, bem animado, soube que herdara milhares de Euros depositados num banco em Roma e uma grande propriedade em Ragusa, a qual pretendia vender sem demora, bem como, antiguidades raras descrita em uma vasta lista que o notário entregara juntamente com outros documentos.
A última condição para recebimento de todos os bens era visitar a casa sozinho e fazer uma oração em latim, escrita num velho papel, para a alma da falecida, na porta de entrada.
Ele tentou se esquivar da enfadonha tarefa, no entanto o notário deveria acompanha - lo e aguarda - lo na varanda, onde ouviria a prece proferida em alto e bom som.
Um sacrifício odiento para ele, mas não podia recusar a última vontade da velha, registrada como condição essenziale, sob pena de perder o direito ao espólio.
Maçante, no entanto, o valor do patrimônio valia o sacrifício. Aborrecido, aceitou recitar a oração em latim após o notário ameaçar fechar o pesado livro onde a vontade da velha fora anotada.
Ambos rumaram para a casa na Marina di Ragusa, as margens do Mar Mediterrâneo. O médico herdeiro impressionou - se com a beleza e o luxo do local. A casa imensa, banhada pelo sol, deixou - o maravilhado. Era muito além de suas expectativas. Sabia reconhecer algo elegante e caro.
Internamente, somou a cifra de milhares de euros que aquela mansão iria render, caso a vendesse. Respirou profundamente para conter o entusiasmo diante de tanta beleza, sofisticação e riqueza. No entanto, não demonstrou sua empolgação ao simples notário que o observava de canto de olho.
Pararam enfrente a belíssima porta de entrada que se abria direto para o Mar.
- La preghiera . - Disse o tabelião, apontando o papel.
O médico abriu - o e leu em voz alta - EGO tribuo meus animus. - Jogou o papel no chão e decidido complementou -  Eu entro só.
- Essa é a condição. - Falou sorrindo, de um jeito maligno, o homem alto, encurvado e de cabelo seboso.
O herdeiro sentiu outro arrepio percorrer sua espinha. Sentiu medo, muito medo, mais medo do que poderia imaginar que pudesse sentir.
Quase desistiu.
- Lei è spaventato?
O médico olhou com desprezo para o notário e entrou com seu peito inflado de arrogância.
Ao cruzar o pórtico da casa, sentiu - se tonto, nauseado. Quase desmaiou. A escuridão o envolveu e o frio cortante fazia tremer até seus ossos. Ao seu redor giravam imagens fantasmagóricas, esbranquecidas, de longos fios de cabelos velhos e esvoaçantes. O cheiro de coisa suja, pútrida, invadiu suas narinas como um golpe desferido brutalmente. Não teve tempo de se recuperar da repulsa e avistou uma velha sem dentes, imunda e recendendo a álcool e cebola olhando em seus olhos.
- Ego furtum tuum ánima .
A velha bruxa falou em latim, mas ele entendeu, embora nunca aprendera a língua morta.
- Roubar minha alma??? - Disse, numa voz sumida.
A mulher hedionda, de pele muito enrugada, parecia deslizar ao seu lado, enquanto entoava uma cantilena antiga; toda a cultura e riqueza do prepotente médico nada puderam contra a maldição expelida pela escura e odiosa boca absurdamente aberta daquela que se auto - denominava domine dominus maledixit fati.
Ele estava apavorado e enojado, porem não conseguia se mover. Seus músculos amolecidos não o obedeciam, sua boca pastosa expelia saliva abundantemente, mas iria piorar.
Quando terminou a cantilena, a velha colocou as mãos no alto da cabeça do rapaz, e grudou sua boca, que parecia ter se transformado em uma imensa sanguessuga, direto no ânus do atônito, enlanguescido e terrificado médico que sentindo uma dor infinita, percebeu que sua alma era morbidamente sugada através do orifício externo de seu reto.
Apesar das vistas embaçadas, enxergou a bruxa se transformando.
Era espantoso.
Com horror, gritou inutilmente ao ver que ela se transformara nele. Habitava seu corpo jovem e ria satisfeita.
O médico olhou para si mesmo e o que viu o deixou enlouquecido. Ele habitava o tênue e nojento corpo da velha.
Num átimo, a bruxa usando o corpo do médico, saiu lépida e renovada pelo pórtico frontal da casa, enquanto ele, amaldiçoado, ficaria ali eternamente preso a um corpo asqueroso e com o qual não podia se movimentar além dos limites do negrume assombroso ao redor. Tentou gritar novamente e um ronco surdo saiu de sua bocarra intumescida acordando as outras vítimas da bruxa. Milhares de espíritos, outrora cultos e ricos, estavam presos à sórdida escuridão que os envolveria para sempre.


quarta-feira, 28 de agosto de 2013

O TRAPALHÃO ZACARIAS DISFARÇADO

Voltando aos bons tempos em que viajei Brasil afora com os Trapalhões, Dedé, Mussum e Zacarias, antes deles irem para a Globo.

Sempre gostei de um costume antigo dos homens de se comunicarem através de assobios. Um assobia o outro responde e pronto, esta feita a comunicação. Parece algo que aproxima a brutalidade masculina à delicadeza dos pássaros. 
(Creio que tenha ficado gravado em minha memória a boa lembrança de quando éramos visitados pelo irmão de meu pai ou quando visitávamos a família de meu tio e, antes do encontro, um irmão assobiava e o outro respondia com o mesmo assobio longo, melancólico, bastante parecido com o canto do Jaó. Era o  momento que prenunciava a alegria do reencontro de dois irmãos que se amavam.)

Os Trapalhões tinham esse costume agradável. Eles se comunicavam, à distância, através do som de quatro silvos curtos e enérgicos.
Quando terminava algum show e nos separávamos na hora de ir embora, ouvia - se quatro curtos silvos e todo mundo sabia onde estava todo mundo.
Em geral, ao final de shows em circo, cada um saía por um local diferente, porque o assédio do público era inevitável e, se eles saíssem todos juntos, ninguém andava. Assim, saindo separadamente, dividia - se o assédio e era mais fácil acessar o carro. Quem chegasse primeiro no carro soltava os sonoros quatro assobios e os outros respondiam. Confesso que ficava frustrada porque era uma comunicação apenas deles e, definitivamente, meus lábios não sabiam como se dobrar para soltar o som.

Todas as vezes que fazíamos um show, Mauro tirava a peruca e a maquiagem de Zacarias e saía tranquilamente sem ser reconhecido, em geral eu ia ao seu lado,conversando tranquilamente. 

Enquanto isso: 

O Dedé sofria  o cerco histérico das mulheres que chegavam a arrancar sangue com arranhões impudicos e, enlouquecidas, passavam a mão em certos lugares de sua parte baixa. Era arriscado sair junto com ele, pois muitas meninas ficavam com ciúmes de qualquer mulher ao lado do mais bonito dos Trapalhões ou, pelo menos, do mais ajeitado, rsrs. Uma única vez, saí de um show ao seu lado e uma garota muito excitada e raivosa quase me deixou careca. Nunca mais me arrisquei ao lado do Dedé em saída de espetáculo.

O Mussum sofria o assédio de criançada, homens e senhorinhas. Ele era muito querido, mas as crianças sempre batiam em sua nuca e o chamavam de negão e ficavam tão felizes com sua presença que poderiam atropelar qualquer um que caminhasse ao seu lado. E, claro, havia aqueles guris espevitados, tipo hiperativo ou endiabrado, que conseguiam estar em dois lugares ao mesmo tempo. Subiam nas costas do Mussum ou paravam à sua frente, impedindo - o de caminhar.
Era uma loucura!

Como a simplicidade era costume dos três, jamais contrataram segurança, mesmo porque eles nem se incomodavam tanto com esse assédio. Davam boas risadas, comentando um ou outro incidente engraçado.

Certa vez, eu e Mauro saíamos tranquilamente através de uma brecha da lona do circo, vimos o Dedé em meio a uma roda de mulheres, sorrindo sem jeito, entregando "santinhos" com sua cara. 
- Coitado. - Eu disse - Olha lá o Mussum.
Mussum parecia ter um enxame de crianças sobre ele. 
E, um dos "capeta em forma de guri" gritava, perguntando onde estava o Zacarias.
Mauro, aliviado por não parecer nada com o Zacarias, sorriu cúmplice para mim.
Mas, o "capetinha" corria em volta do circo feito um ... um... capeta mesmo, procurando pelo Zacarias.
Aí, o guri deu de cara com a gente. Parou, olhou e nós seguimos fazendo pose de indiferentes. Então, o danadinho gritou:
- OLHA O ZACARIAS DISFARÇADO DE CARECA!!!!
E.... boom!!!
Todo mundo que cercava Dedé e Mussum se precipitaram para cima do Zacarias disfarçado de careca.
Eu andei rapidinho e consegui sair daquela roda de malucos, transbordando felicidades.

Encontrei Dedé e Mussum, sem ninguém ao lado, com cara de galhofa e rindo do "disfarce" do Mauro.

Quando conseguimos sair do circo, com a ajuda dos funcionários circenses, que praticamente arrastaram Zacarias para fora do "círculo de fogo" e zarpamos, rapidinho em direção à estrada, todos estavam às gargalhadas com a "capetice" do guri. 
A risada mais alta era a do Mussum. 
O Mauro não acreditava na esperteza do garoto que descobriu seu disfarce.
- Nunca pensei que alguém fosse me reconhecer sem a peruca e maquiagem, ainda mais no escuro.

A viagem seguiu alegre e cheia de risos.  E, ainda ríamos quando paramos num auto - posto para jantarmos.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

FÁBIO JUNIOR E EU


Conheci Fábio na passagem dos anos 80 para os 90. 

Eu estava batalhando pela construção de um centro de assistência gratuito a crianças carentes com síndrome de down (Centro de Convívio e Habilitação para Excepcionais Maria José). Hoje o local está funcionando em Parelheiros, mas eu me afastei há alguns anos. 
Enfim... 
Procurava por cantores que estivessem dispostos a fazer show com o objetivo de arrecadar fundos.
Liguei para o empresário de Fábio Jr, pois se o famoso cantor topasse, iríamos realizar a compra dos equipamentos necessários com tranquilidade. 
O empresário chamou - me ao escritório para conversarmos. 

Quando entrei lá, dei de cara com um dos homens mais bonitos que havia visto em minha vida até então.
Parei, respirei, pensei em meus objetivos e conduzi a conversa da melhor maneira possível, mas aquele sorriso...Meu Deus. O que me ajudou naquele momento é que me lembrei que nunca me apaixonara por nenhum homem bonito além, obviamente, do Elvis Presley. E, que sempre fui atraída por homens diferentes, alguns mais cheinhos,  outros mais "pretinhos", também podia ser branco, sempre fui democrática neste quesito, mas não gostava de homem bonito, não me sentia atraída nem ficava excitada com homens lindos, com exceção, obviamente, do Elvis, que quando engordou um pouquinho me deixou mais atraída ainda.

O sorriso daquele príncipe me atraía terrivelmente, mas inexplicavelmente me amedrontava. 
Fui embora meio tonta, cabeça avoada, rindo de mim mesma e aliviada por imaginar que ele jamais iria pensar em mim. 
Ficaria no aguardo de uma ligação do empresário para confirmar ou não o show do cantor. 
"Gente, eu nem curto as músicas dele" - pensei antes de me recusar a lembrar daquele sorriso feiticeiro.
Deitei e dormi feito um anjo, até...

Quatro horas da manhã, toca o telefone. 
Atendo 
- Nicole -  diz a voz do outro lado da linha -  Fiz uma música pensando em você. 
Fiquei muda. Não, não era trote, era ele mesmo. 
E, ele cantou. E eu me encantei. 
Não lembro a música (que raiva!) nem sei se ele gravou ou não, mas sei que era bem linda, mesmo se não era, mas era linda, eu tenho certeza que era.

Dia seguinte, ele passou em casa para sairmos. 
Minha empregada teve um treco quando o viu: gritou, desmaiou, se debateu, fez xixi na calça e, confesso, que nunca vi uma pessoa soltar tanta caca pelo nariz (eca). 
Minha mãe italiana e caipira que não gostava de fazer desfeita às visitas falou:
"Descurpa" seu Fábio, mas essa menina é uma tonta. Deus dá a oportunidade dela ver o senhor e ela me faz essa "estupideza". Devia aproveitar pra ver a beleza do senhor e me desmaia feito uma "stronza". 

O belo cantor não sabia se ria de minha mãe ou se acudia a "stronza". Tirei ele de casa rapidinho.

Eu precisava ir até uma amiga, Dona Terezinha, que passava a maior parte de seus dias em Uberaba na casa do Chico Xavier, desde que Rosemary, sua filha, havia desencarnado. Falei à ele quem ela era e disse que ele poderia ficar no carro. Sei lá, a casa da Terezinha vivia cheia de gente querendo que ela arrumasse um encontro com o Chico e, vai que tivesse alguma "stronza" ali também.
Ele insistiu em entrar. Achei de uma simplicidade a atitude dele, afinal a casa da Terezinha era bem modesta.
Ele entrou e como tinha um monte de senhorinhas lá dentro, que ocupava todo o pequeno sofá, ele sentou no chão, sempre sorridente e com uma naturalidade impressionante. 
Entreguei o que tinha de entregar a minha amiga e disse a ele que Terezinha também fazia parte do Centro de Convívio para excepcionais. Ele sacou um talão de cheques e preencheu duas folhas, enquanto eu me despedia do monte de senhorinhas simpáticas e amigas, mas mantinha um olho virado para ele. 
Fábio, discretamente, passou os dois cheques para Terezinha. Um era para as obras dela, o outro cheque era para o Centro de Convívio. Pelo semblante de Terezinha, percebi que os cheques eram polpudos, ela, com o jeitinho aprendido na convivência com o Chico, insistiu em recusar, mas o olhar imperativo e feiticeiro do príncipe não deu margem à recusa. 
Quanta delicadeza e generosidade numa pessoa. 
Eu não havia pedido nada, nenhuma doação, nada, nada e, Terezinha menos ainda.

Um dia, Terezinha me disse:
- Nunca pensei que Fábio Jr fosse um poço de candura e generosidade. Naquele dia em que vocês estiveram em casa, lembra? Eu não sabia como comprar alimentos para meus assistidos. O dinheiro havia acabado e estávamos reunidas pensando no que fazer. Eu já tinha até chorado e estávamos em preces quando você chegou com ele. 

Eu não sabia dessa dificuldade de Terezinha com os seus assistidos.
E ela complementou com amor e gratidão:
- Fiz oração por ele lá no Chico


Após o belo gesto de Fábio na casa de dona Terezinha, onde Fábio, sem saber fez parte, segundo minha bondosa amiga, dos desígnios divinos ao lhe passar o cheque e, assim, proporcionar alimentos e melhores condições aos seus "necessitados" por quase um ano, eu e ele fomos ao encontro de seus amigos numa pizzaria famosa ali no fim da Rua Augusta.
Obviamente, ele foi o centro das atenções. Muitos amigos, amigas... Moças que quase choraram ao me ver de mãos dadas com ele. Outras, que se insinuavam, atrevidamente e sem a mínima classe. Porém, tinha muita gente boa e conhecida, também. 
Foi agradável. Eu estava acostumada com o ciúmes de mulheres frustradas e não me sentia  nem dona e nem namorada de Fábio, já que nem era mesmo. 

No dia seguinte, eu teria de viajar com uma peça e o voo estava marcado para às 7 da manhã, então deveria estar no aeroporto às 5 horas. Despedi - me de Fábio, enfrente à minha casa, em Interlagos na época, exatamente à 1 hora da manhã, sem sequer te - lo visto sem roupas ou nem mesmo ter feito nada além de presenciar sua generosidade com Terezinha e dividir a pizza. 
Não, não fizemos amor. 
Fábio pode ter fama de garanhão, mas ele é muito gentil, delicado e sim, meninas, muuuiiito romântico.

Viajei por dois meses pelo nordeste e Fábio retornou à sua vida normal. Não havia celulares, por isso, era quase impossível a comunicação; mas minha mãe contou pelo telefone que havia chegado flores do Fábio Jr, no dia em que eu embarquei. LINDO DEMAIS.

Quando retornei ao final da  turnê de dois meses, minha irmã, alegremente, me contou sobre um encontro inusitado com o cantor na ponte - aérea e que ele falara muito bem de mim e de meu trabalho no projeto da construção do Centro de Convívio.

Fiquei sem ver o Fábio por mais ou menos 5 anos, até que, por coincidência, nos encontramos num mesmo hotel em Recife. Foi uma alegria só. Fui, junto com a Marcela Ráfea, uma amiga atriz, assistir o show dele. LOTADAÇO.

Ao final do show, fomos ao camarim. Muitos fãs aguardavam Fábio, mas, por ordem dele, fui a primeira a entrar. Depois de falarmos sobre amenidades, ele me chamou a um canto e me perguntou:
- Nicole, você acha que eu estou muito estrela?
Estranhei a pergunta. 
- Como assim, Fábio? Estrela você é. O que você quer dizer?
- Nicole, é tanto assédio, tantas facilidades, sucesso etc. que, às vezes, acho que não estou sendo fiel a mim mesmo. Parece que perco a noção entre o Fábio que sou e o Fábio que as pessoas veem. 

Achei de uma sinceridade tocante a preocupação dele. 
É difícil para uma celebridade como ele ter essa noção e, principalmente a simplicidade e honestidade de querer saber se não está passando os limites da naturalidade.

Fábio, que conheci, é peculiar, simples, bondoso e uma pessoa que segue seus instintos.

Mas....   

PARA A FELICIDADE DE MUITAS FÃS E DECEPÇÃO DE MUITOS FOFOQUEIROS.

EU E FÁBIO NUNCA NAMORAMOS, NUNCA TRANSAMOS E NOSSA RELAÇÃO FOI APENAS ESTA QUE DESCREVI.
SE ALGUÉM FALAR ALGO A MAIS, ESTARÁ MENTINDO.


Em tempo:

Fábio, o Centro de Convívio e Habilitação Para Excepcionais Maria José, para o qual você fez a doação, está funcionando e atendendo muitas crianças carentes.

 Em nome de todo o pessoal: OBRIGADUUUUU!!



quarta-feira, 21 de agosto de 2013

COMO CONHECI BELCHIOR E FAGNER (OS ETs) NOS ANOS 70.

Os estranhos:
Belchior e Fagner.


Relembro como os conheci.

Foi no restaurante da TV TUPI, não na padaria ao lado, mas no restaurante da emissora, um lugar de refeições baratas, meio gordurosas, com cheiro forte de café e pão com manteiga e, claro, aquele cheiro rançoso que abre o apetite quando se está com fome e enoja quando se termina a refeição. 
A TV Tupi, como quase todos sabem, ficava ali no Sumaré e ainda respirava seus últimos momentos de glória quando vi dois rapazes estranhos entrando naquele restaurante. Um deles era magro demais, alto demais e possuía um nariz tão grande que parecia impossível desviar o olhar. Nariz de Carcará. Óbvio que o compridão magrelo era nordestino, dava pra perceber bem antes dele abrir a boca e falar com sotaque tão carregado que, eu, uma "sulistazinha" recém chegada do Paraná, acostumada com a presença de italianos, espanhóis e alemães, mas não com os "caboclos" como os chamavam na região onde eu morava, não conseguia entender seu palavreado e cadência bonita no modo de falar. 
O outro que o acompanhava, cujo sorriso aberto parecia uma afronta simpática, lembrou - me, na hora, Sancho Pança. Havia lido Dom Quixote e meu personagem preferido era o Sancho, talvez, por isso, eu me simpatizei com ambos quando sentamos, por questão de lotação do restaurante, bem próximos. Gentilmente, eles sorriram, eu sorri de volta. Adorava seres "extraterrestres" e eles se encaixavam perfeitamente no quesito alienígenas, mesmo nos idos de 70. 

Não lembro exatamente como começamos a conversar, mas adorava ouvir a voz nordestina falando, falando enquanto a voz rasgada e agressiva do outro não combinava com sua meiguice, mas tinha tudo a ver com sua aparência. Só falavam de música, mas parece que tinham uma vidinha meio dura. Quando eu soube que o "Sancho" era o cantor de uma música que começava a fazer sucesso, eu fiquei deslumbrada. Adorava aquela música estranha que começava assim... Eu sou apenas um rapaz latino americano.... Eu me identificava com aquela música. Achei o máximo! Belchior era o nome estranho daquele rapaz latino americano, também estranho. 

E o nordestino, cujo nome também bizarro, tinha um semblante sereno, "olhar comprido" como se observasse ao longe, muito longe, algo inalcançável aos seres humanos normais. 
Vez ou outra, a gente se encontrava ali, foram poucas vezes, confesso com pesar, mas era muito curioso participar daqueles raros momentos. 

Depois, Fagner, o nordestino só foi visto por mim na TV, no rádio e em tudo quanto é lugar de sucesso. Não houve tempo de nos tornarmos amigos, nem sei se ele se lembra da minha recordação.

Enquanto isso, o rapaz de longos bigodes, se tornou um amigo, um amigo meio diferente dos meus amigos ditos normais, se é que tive amigos normais. Belchior era tímido, sentava cruzando as pernas, deixando a descoberto suas canelas brancas sem meias que as protegessem e um sapato mocassim. Sorria, conversava com aquela voz monótona, estranha, mas absurda e incompreensivelmente agradável.
O tempo e mil afazeres nos afastou.
Não sei por onde o Belchior anda. As notícias sobre ele são, obviamente, estranhas.
Mas, aqueles poucos momentos no restaurante da TV Tupi foram marcantes.

Nossa, como vivi! E como amei esses momento vividos e vívidos em minha vida.

http://www.youtube.com/watch?v=zALmNtZ7yb0&hd=1

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

AOS QUE INSISTEM EM PERGUNTAR SE DOMINIQUE É HOMEM OU MULHER!

 Sei lá por que tanta gente se interessa em saber se Dominique é homem ou mulher.
Ficam me perguntando...
Perguntem para ela!

Tanta coisa para se falar de Dominique...
Uma pessoa inteligente, engraçada, bom caráter. Tranquila e simpática como eu nunca fui.
Quem a conhece sabe de sua gentileza, personalidade firme e facilidade de se relacionar.
Ponderada e madura. 
Já passou por algumas tragédias, mas NUNCA perdeu a alegria.
É uma pessoa corajosa e é meu maior apoio.

E, se ela fosse ELE!?
E, se ela fosse hermafrodita!?
e, se ela fosse travesti!?
E daí?
Cada uma... Só rindo.

Não vou responder essa questão.
Não tenho preconceito nesse quesito.
Não me importaria se fosse ou não fosse.
Amaria um filho ou filha independente de cor, raça ou sexo.

Outra coisa, o nome dela é Dominique Brand e não Dominique Puzzi. 
E, ela se diverte com essa besteirada toda.









terça-feira, 13 de agosto de 2013

Artista é tudo vagabundo


Artista é tratado como vagabundo, como vagabundo da pior espécie! Mas, somente se o artista estiver desempregado.

Não falo apenas por mim, não.
Eu me preocupo com muitas coisas além de mim mesma. Preocupo com animais, florestas, idosos, roubalheiras, crianças, violência etc.

Eu falo por todos os milhares de artistas desempregados, sem grana, fudidos...
Aqueles que parecem valer menos que um assassino ou estuprador. 
Calma, que explico já já.

Enquanto ouço rumores de que tem atores iniciantes na Globo, cujos pais pagam até 1 milhão ou mais para ganhar uma personagem numa novela (o que duvido), ouço também que muitos artistas "se estapeiam" para ter, pelo menos, uma chance de aparecer na Fazenda, ganhar no mínimo o cachet básico para tentar uma continuidade na carreira,  mesmo enfrentando o preconceito e deboche medíocre de quem assiste e diz odiar esses "programas baixaria". 

Também, ouço rumores imbecis de que quem não tem talento não se estabelece. Ah, é??? 
A ética me costura a boca, mas dá uma olhada em todos os seguimentos profissionais, seja artista, repórter, médico, professor, engenheiro, dentista ou qualquer profissional bem sucedido e, que você sabe, que é muito incompetente. 
Se não houvesse incompetente estabelecido, prédios não cairiam, erros médicos não aconteceriam, lojas não iriam à falência e atores ruins não estariam na TV. Até padre e pastor incompetente se estabelecem.
Nem vamos falar em políticos.
Quanta gente estabelecida em cargos de comando sem a menor competência. 
Você sabe disso ou então é cego e não olha ao redor, ou é incompetente estabelecido.
Um dia, alertei isso ao meu amigo Leão Lobo e ele, surpreso, acabou concordando, pois a realidade é essa: 
INCOMPETENTE TAMBÉM SE ESTABELECE. 

Acima, redigi um preâmbulo do que quero realmente falar. 
E, o que quero falar é:


ARTISTA É VAGABUNDO.

 Senão, vejam só:    

SEGURO DESEMPREGO - Quem não esta  na CLT não tem seguro desemprego.  
MÉDICOS CULTOS E RICOS - Salário de 10 mil reais.     
ARTISTAS - A maioria ganha menos de 10 mil, isto quando     esta empregada. 

AUXÍLIO RECLUSÃO DE PRESOS - 971,78 (assassinos, pedófilos, estupradores etc) 
ARTISTAS DESEMPREGADOS - 000,00
BOLSA CRACK - 1.350,00
ARTISTAS DESEMPREGADOS E SEM VÍCIOS - 000,00
BOLSA FAMÍLIA - DE 36 REAIS A 306,00
ARTISTAS DESEMPREGADOS COM FILHOS, GESTANTE OU NUTRIZES - 000,00
BOLSA VERDE - 300,00 REAIS MENSAIS 
ARTISTAS DESEMPREGADOS - 000,00

Outras bolsas seguem o mesmo viés. Cansei de comparar.

Mas, vejamos ainda alguns benefícios:

FGTS 

Artista em geral é obrigado a trabalhar com firma própria. 

Como disse, somos obrigados a trabalhar com firma própria ou então ganhar cerca de 30 por cento a menos na carteira, mas em geral, se o artista não tem firma, nem sequer é contratado.

APOSENTADORIA DE ARTISTA-  Ahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahaaaa


Se alguém acha ainda que artista merece isso, tente não assistir TV, não ir a Teatro, não ouvir música, não ver A Fazenda, não ter de quem falar mal etc

O problema é que: 
os artistas que estão bem empregados não vão arriscar a carreira por aqueles "contaminados" pelo desemprego.
Sim. Contaminados sim.

Quer ver um monte de artista bem sucedido sair correndo???
Coloca um artista desempregado chegando perto deles. 

Quer ver um diretor ou autor perder a tolerância?
Basta a presença de um artista desempregado para eles perderem o senso.

Em São Paulo sequer temos asilo de artista!
Os sindicatos são redutos inacessíveis.

Justiça seja feita, o sindicato dos artistas do Rio de Janeiro mantém um excelente Retiro dos artistas e faz um bom trabalho, facilitando a vida de muitos, mas, eles mesmos conscientemente sabem que é pouco. Foi o único sindicato em que fui bem tratada.

CANSEI DE VER ARTISTA FERRADO, SENDO TRATADO COMO VAGABUNDO, MORRENDO ÀS MÍNGUAS E ENVERGONHADOS.

Ah, se quiser criticar, se informe primeiro, ou então vá para o inferno e esqueça a classe artística!

Reiterando: 
Estou expondo a condição miserável e injusta de uma grande parcela de artistas desempregados, velhos, deficientes, doentes etc. e que não podem contar com benefícios legais que todos os trabalhadores e até infratores e viciados têm por direito Legal.







sábado, 10 de agosto de 2013

Porre com o Mussum

Saímos de São Paulo para excursionar pelo Sul do Brasil. De carro. Eu, Dedé, Mussum e Zacarias.


Fazíamos show numa cidade e de madrugada viajávamos para outra, cada vez avançando mais em direção ao fim do Brasil. 
Nesta fase, os shows eram marcados em ginásios das cidades, sempre lotados. 
Como a Maricleusa não viajava mais conosco, eu fazia parceria com o Dedé no palco logo no início do espetáculo e depois voltava numa esquete com o Dedé e Mussum.
Quando nossa viagem chegou ao estado do Rio Grande do Sul, o frio estava insuportável. 
Fizemos apresentação em Porto Alegre e descemos um pouco mais, em direção à Bagé. 
Um frio de matar e não havia aquecimento nos carros de nosso país atrasado pela ditadura em sua agonia final.
O Mussum quis parar numa vinícola, onde já era conhecido.
Uma alegria geral por parte dos donos, funcionários e um monte de gente que correu para ver Os Trapalhões. 
Impressionante como amavam o Mussum. As pessoas adoravam todos os três, mas o Mussum era algo mágico, diferente e incrivelmente carismático.

Uma coisa costumeira que os 3 faziam, em todos os restaurantes onde paravam, era ir até a cozinha cumprimentar os empregados. 
Não se tirava fotos com a facilidade de hoje, mas a alegria estampada no rosto humilde dos fãs valia mais do que registrar um momento no tempo em uma câmera. 
Era de uma humildade ver três astros tão queridos se curvarem às brincadeiras dos fãs, assinarem cadernos, papéis meio sujos, guardanapos, camisetas...
Esse gesto de atenção e carinho para com os fãs era tocante. Um costume que o Dedé conserva até hoje e que, tenho certeza, que se o Mussa e o Mauro estivessem vivos, iriam conservar também.
Eles amavam o que faziam e amavam serem amados e, creio que por isso eles retribuíam o amor recebido.
Nunca foram estrelas, longe disso. A humildade era característica dos meus três amigos. 

Saímos da vinícola carregados de garrafas. 
E, paramos, várias outras vezes, em outras vinícolas pela estrada.
O frio apertava e eu me achando o máximo: havia bebido, às escondidas, quase uma garrafa de vinho e não estava bêbada. 
Quase comemorei.
Chegamos encima da hora para o show no lotado ginásio da cidade e fomos direto para o palco. O ginásio era aberto e o vento predizendo a geada invadia todos os cantos. E eu, fora de cena, bebia mais e me achava o Mussum de saias: posso beber e nada acontece.
Terminou o show, eles cumprimentaram todo mundo, abraçaram cada um que quis abraça - los e, com o estômago roncando, fomos finalmente para o restaurante.
Entrei. O restaurante era aquecido. Choque térmico. Desmaiei.
Na volta, no dia seguinte, percebi que eu NUNCA poderia ser o Mussum de saias. 
Amarguei uma ressaca e ainda levei bronca dos três e fui zoada durante todo o caminho de volta. Ainda lembro as sonoras gargalhadas do Mussa.
Mas, não aprendi a lição, teve um outro porre. 
Depois eu conto.



domingo, 4 de agosto de 2013

VIDA APÓS A MORTE

Não somos eternos neste planeta! De vez em quando se faz preciso lembrar.

Muita gente crê numa  vida após a morte do corpo. Pode ser que exista, para falar a verdade, torço para existir uma vida melhor, um "wonderful world", um lugar mais amigável, amoroso, com seres que respeitam a dor alheia, cuja maldade (pequeninas e grandiosas) tenham sido excluídas da convivência harmônica.
Mas, que não seja apenas contemplativa, que tenha festas, encontros, namoros, passeios com crianças e cachorros e gatos e todos os animais sem receio de perde - los ou de serem maltratados. 
Pode ter até um dorzinha de amor, mas apenas uma dorzinha que logo se acabe com beijinhos.
Pode ter, também, uma gripezinha com temperatura ligeiramente alta, só para a mãe vir trazer o chá e nos olhar "daquele jeito" que só elas sabem olhar. Ah! o pai pode ser meio chato, mas tem que esconder lagrimazinha de alegria orgulhosa que eles costumam soltar às escondidas.
Tudo isso e um pouco mais.

Já imagino minha mãe correndo para me abraçar, secando a mão no avental, quando eu chegar lá cansada, emocionada e chorando ao revê - la após tantos anos de separação.
Sim, comer uma macarronada neste "wonderful world" não seria nada mal, se fosse feito pelas mãos dela. 
Ver meu pai velhinho, sentado, todo sentimental, fazendo cara de bravo, mas amolecendo ao ver que chego e chego feliz  com a mente tranquila de dever cumprido, apesar de minhas fraquezas.

Não, não estou pensando, nem querendo morrer, não me interprete de forma errada. 
Só acredito que pensar na única coisa inevitável nesta vida, pode nos ajudar a vivê - la melhor, com mais qualidade e menos presunção.
Muito parecem querer morrer antes da hora e se entopem de coisas que os aniquilam, inclusive pensamento odiosos, invejosos e sombreados de crueldade. 
Outros vivem à margem da vida, criticando de maneira mesquinha os erros dos outros como se eles mesmos não os cometessem.
E aqueles que praticam a burrice da intolerância... ?
Os cuidadores da vida alheia?
E, os mais tristes, os que não amam ninguém, que odeiam os pais sem nem saber por quê,  que odeiam animais,  não suportam crianças....?

Não sei se existe vida após a morte. 
O que sei é que a morte existe para todos.
Muitos estão vivos apenas na aparência.
Muitos estão mortos, mesmo respirando.
Muitos mortos que respiram querem matar os sonhos dos vivos.
Muitos vivem mortos. MUITOS VIVEM UMA ETERNIDADE NUMA VIDA SÓ.