sábado, 26 de janeiro de 2013

Eu tenho um filho e ele se chama Roni Galvão.

Muitos anos atrás, final dos anos 80 e início dos anos 90,  fui convidada para para ser voluntária na antiga FEBEM. 
Alguns amigos tiveram receio e aconselharam - me a não aceitar, afinal, o local abrigava infratores e não somente crianças abandonadas.
Porém, não tive medo. Aceitei. 
Levei um choque ao chegar lá.
Muitos adolescentes tentando ser um adolescente normal, mas a vida severina não permitia.
A realidade daquelas crianças era bem diferente. Era cruel.
Meninos reclamavam de ter apanhado com toalha molhada para não deixar marca. No início fiquei indignada e insisti que fossem até o Juiz e denunciassem. Eles recusavam. eu não entendia e perguntava por que? Até que ouvi: Tia, quem bate trabalha aqui, o juiz não.
Vi coisas que arrepiaram minha sensibilidade:
- Uma menininha cujo pai e mãe tinham morrido. Ela era pequena, mas os seios estavam proeminentes. uns quinze dias depois, ficou óbvio que ela não era mais uma menininha. Seu olhar  era outro, havia perdido a inocência.
- Um rapaz de 17 anos, alto, negro e bonito que cumpria suas "obrigações" com uma certa mulher que trabalhava lá e que deveria orienta - lo para um futuro melhor.  
- Jovens que tentavam suicídio e outros que se suicidavam.
- Profissionais que sequer se preocupavam com os internos.
- Profissionais que descarregavam seu ódio encima daqueles meninos.
- Profissionais de ambos os sexos que perseguiam libidinosamente os internos de boa aparência.
MAS...
A  par de todo esse circo dos horrores havia profissionais e voluntários de excelente índole, que se preocupavam de verdade e faziam a diferença na vida dos menores. Pessoas que se sacrificavam em busca de um futuro para aqueles jovens esquecidos e detestados pela sociedade "normal".

Entre esses jovens, havia um rapazote de 14 anos, que usava óculos e tinha um humor ácido. Um menino pardo, magro, de olhar atento e muito inteligente. Esse menino tinha sido encontrado no lixo, abandonado por alguma mulher que o colocou no mundo e seria sua mãe e sabe - se lá quem era o pai. Na sua identidade não constava os nomes no local FILIAÇÃO. Confesso que chorei ao olhar o vazio naquele espaço sem o nome do pai, sem o nome da mãe.

Ele era o meu melhor aluno no curso de teatro.
Pensei em dar meu nome para preencher o espaço vazio. Impossível, disse - me um juiz. Você é solteira, a Lei não permite. (Estamos falando de anos atrás). 

Levei esse garoto para sua primeira noite de Natal em família com a minha família.
Fizemos muitas coisas juntos: teatro, ida ao CT do Palmeiras entre outros passeios. 
Certa vez, o rapazote estava muito rebelde, falava coisas agressivas. Eu olhei em seus olhos e falei :
- Ninguém vai te ajudar. Seu futuro depende exclusivamente de você. Você decide o que quer para o seu futuro. 

Á noite, passei mal, sentindo - me culpada por tanta frieza, mas essa era a triste realidade daquele jovem. Só ele podia se ajudar. 
Os anos passaram, o rapazote tornou - se homem, arranjou emprego, formou - se na faculdade e constituiu família e um dia trouxe lágrimas aos meus olhos:
 - Nicole você me deu um conselho de mãe quando disse que meu futuro só dependia de mim. 
Esse é o meu filho, Roni. Eu estava certa, o rapazote era inteligente. Tornou - se um pai amoroso, bom marido e um grande homem do qual eu me orgulho.


Te amo meu filho.