domingo, 10 de março de 2013

Eu e Paulo Autran


Fiz apenas uma peça com Paulo Autran, mas foi A PEÇA - Tartufo de Moliére.
Isso foi em 1985 no Teatro Maria della Costa.
Recém saída do cinema nacional, em minha segunda peça na carreira.
Só havia feito "O Terceiro Beijo" do estreante Walcyr Carrasco, sob direção do queridíssimo Jacques Lagoa.
Eu era um pouco tensa em meu dia a dia, muitos compromissos, tantas coisas, enfim... Mas, era bastante tranquila ao inciar qualquer trabalho. Jamais ficava ansiosa, nervosa, não criava expectativa. Se ia filmar, ok, na boa. Se ia gravar uma novela, tudo bem também. E, na peça anterior "O Terceiro Beijo" fui a tranquilidade em pessoa no dia da estreia e olha que aconteceu tudo que não deveria acontecer.
Não me preocupava o fato de entrar em cena.

Mas, encantada por realizar um sonho quase impossível, trabalhar ao lado de Paulo Autran, muita coisa mudou.
Amei o Paulo a primeira vista; isso parecia normal a todos que o viam pela primeira vez.
Durante os ensaios, eu fazia chá de jasmim e levava para nós dois bebermos em seu camarim. Às vezes, trazia junto bolinhos de chuva feitos pela minha mãe. Ele amava os bolinhos. 
Era algo mágico, especial demais. Um privilégio!
Quando se aproximava a estreia eu via o Paulo muito concentrado, meio calado, mas sempre gentil e fino. Um Lord!
No dia da estreia, o teatro abarrotado, aquele corre corre na coxia e o Paulo la no camarim dele. Eu, tranquila, aguardava o terceiro sinal.
No segundo sinal, fomos todos para nossa posição.
Olhei as mãos do Mestre Autran, elas tremiam. Fiquei curiosa, mas ele estava tão concentrado e a cortina já ia abrir.
Quando inciou o espetáculo, nenhuma surpresa, lá estava o grande ator, a incrível performance de um mestre e sua mão não tremia mais. Magnífico!
Nos quatro dias seguintes - na época uma peça ficava em cartaz de quarta a domingo - notei aquelas mesmas mãos do meu ídolo maior tremendo antes do espetáculo e firmes durante o mesmo.
Na outra semana, comentei com um amigo de Autran sobre essa curiosidade.
Ele respondeu:
- Foi sempre assim! Nervosismo de estreia.
- Mas, ele é o PAULO AUTRAN!
O amigo respondeu:
- Exatamente por isso.
Inclinei minha cabeça, refleti. Entendi!
Bateu algo em meu peito. Nasceu a necessidade de amar o público e passei a amar. Nasceu o amor, o desejo de acariciar a platéia, de respeita - la e fazer o máximo dentro de minha limitações. Ser honesta com as pessoas que saíram de casa para me assistir no escuro do teatro. Doar e doar.
Desde então, fico ansiosa e com muita, muita responsabilidade antes de uma estreia.
Se as mãos do Paulo Autran tremiam... enfim...
Saudades dele.
Aprendi durante aqueles meses de Tartufo, mais do que qualquer curso de teatro.

Quanta falta!!!