segunda-feira, 22 de abril de 2013

Ta lá o corpo estendido no chão...

Voltando para casa, entrei na rodovia que leva ao condomínio onde moro.
De dentro de meu carro, em meio ao trânsito pesado, observo:
Crianças no outro carro comem alguma coisa no banco de trás.
No outro lado, em outro carro, uma moça fala alto e um rapaz fala alto. Os dois falam ao mesmo tempo. Devem ser casados. Parece que ninguém precisa ouvir ninguém, apenas falar. Repentinamente, ambos se calam e olham para frente tentando enxergar algo que perderam no passado. 
Desvio meu olhar para o ônibus parado tentando voltar à rodovia assim que nós e nossos carros pudermos sair do lugar. - Parece que estamos plantados no asfalto - O motorista, de cara cansada, estressada e marcada pela severidade da vida dá uma cusparada vingativa no mundo. 
Ligo o rádio, ouço nas ondas que o trânsito em minha rodovia está parado: Um motoqueiro se espatifou no asfalto meio quilômetro a frente de onde estou plantada.- Poxa! que azar o meu! Penso egoisticamente que se tivesse dois minutinhos adiantada teria ultrapassado o motoqueiro antes dele se espatifar. 
Fico aterrorizada!
- Meu Deus, é um ser humano que morreu ali na frente!
- É um motoqueiro a mais, fala a banalidade de morte no trânsito incutida em meu cérebro por centenas de acidentes fatais já presenciados. 
- Deus - repito - É um ser humano que tem uma mãe que vai chorar a dor da perda. É alguém com uma história.
O trânsito se move lentamente, feito um rio Tietê - morto vivo "walking dead" da natureza.
Passo pelo corpo estendido no chão. Lembro João Bosco. http://www.cifraclub.com.br/joao-bosco/de-frente-pro-crime/
Penso numa oração.
Acho que cai uma lágrima ou será a poluição?
Chego em casa me sentindo culpada de alguma coisa.
Uma sensação incômoda, um aperto na garganta.
Penso na mãe do rapaz. 
Toca o telefone, atendo:
- Alo?
- Flor, preciso de você, to muito mal. 
- Que foi? Aconteceu alguma coisa? Pergunto preocupada.
- Não consegui convite para aquela festa da alta sociedade. Você pode me ajudar? Se eu não for, vou morrer. 
Fico calada.
- Flor?? Você esta aí?
Olho para minha mesa e lá está meu convite daquela festa fútil, cheia de gente se achando imortais, participantes de um mundo eufórico, irreal e exibicionista.
- Flor??? Você recebeu convite pra festa? Você é artista, deve ter recebido. Me leva com você. Flor, se eu não for nesta festa, vou morrer!
- Morra!
Bato o telefone e vou tomar um banho. Mas, antes, vou ligar para minhas duas irmãs que rezam para todo mundo que a gente pede para rezar.