quarta-feira, 21 de agosto de 2013

COMO CONHECI BELCHIOR E FAGNER (OS ETs) NOS ANOS 70.

Os estranhos:
Belchior e Fagner.


Relembro como os conheci.

Foi no restaurante da TV TUPI, não na padaria ao lado, mas no restaurante da emissora, um lugar de refeições baratas, meio gordurosas, com cheiro forte de café e pão com manteiga e, claro, aquele cheiro rançoso que abre o apetite quando se está com fome e enoja quando se termina a refeição. 
A TV Tupi, como quase todos sabem, ficava ali no Sumaré e ainda respirava seus últimos momentos de glória quando vi dois rapazes estranhos entrando naquele restaurante. Um deles era magro demais, alto demais e possuía um nariz tão grande que parecia impossível desviar o olhar. Nariz de Carcará. Óbvio que o compridão magrelo era nordestino, dava pra perceber bem antes dele abrir a boca e falar com sotaque tão carregado que, eu, uma "sulistazinha" recém chegada do Paraná, acostumada com a presença de italianos, espanhóis e alemães, mas não com os "caboclos" como os chamavam na região onde eu morava, não conseguia entender seu palavreado e cadência bonita no modo de falar. 
O outro que o acompanhava, cujo sorriso aberto parecia uma afronta simpática, lembrou - me, na hora, Sancho Pança. Havia lido Dom Quixote e meu personagem preferido era o Sancho, talvez, por isso, eu me simpatizei com ambos quando sentamos, por questão de lotação do restaurante, bem próximos. Gentilmente, eles sorriram, eu sorri de volta. Adorava seres "extraterrestres" e eles se encaixavam perfeitamente no quesito alienígenas, mesmo nos idos de 70. 

Não lembro exatamente como começamos a conversar, mas adorava ouvir a voz nordestina falando, falando enquanto a voz rasgada e agressiva do outro não combinava com sua meiguice, mas tinha tudo a ver com sua aparência. Só falavam de música, mas parece que tinham uma vidinha meio dura. Quando eu soube que o "Sancho" era o cantor de uma música que começava a fazer sucesso, eu fiquei deslumbrada. Adorava aquela música estranha que começava assim... Eu sou apenas um rapaz latino americano.... Eu me identificava com aquela música. Achei o máximo! Belchior era o nome estranho daquele rapaz latino americano, também estranho. 

E o nordestino, cujo nome também bizarro, tinha um semblante sereno, "olhar comprido" como se observasse ao longe, muito longe, algo inalcançável aos seres humanos normais. 
Vez ou outra, a gente se encontrava ali, foram poucas vezes, confesso com pesar, mas era muito curioso participar daqueles raros momentos. 

Depois, Fagner, o nordestino só foi visto por mim na TV, no rádio e em tudo quanto é lugar de sucesso. Não houve tempo de nos tornarmos amigos, nem sei se ele se lembra da minha recordação.

Enquanto isso, o rapaz de longos bigodes, se tornou um amigo, um amigo meio diferente dos meus amigos ditos normais, se é que tive amigos normais. Belchior era tímido, sentava cruzando as pernas, deixando a descoberto suas canelas brancas sem meias que as protegessem e um sapato mocassim. Sorria, conversava com aquela voz monótona, estranha, mas absurda e incompreensivelmente agradável.
O tempo e mil afazeres nos afastou.
Não sei por onde o Belchior anda. As notícias sobre ele são, obviamente, estranhas.
Mas, aqueles poucos momentos no restaurante da TV Tupi foram marcantes.

Nossa, como vivi! E como amei esses momento vividos e vívidos em minha vida.

http://www.youtube.com/watch?v=zALmNtZ7yb0&hd=1