quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Na estrada com Dedé Mussum e Zacarias


Quando humoristas do calibre "Trapalhões" não ganhavam o merecido, era assim que as coisas tinham que ser. Ralar nas estradas, mesmo com o programa arrebentando na TV TUPI.

O pessoal do humor do final dos anos 70, época a que me refiro, não recebia em um ano nem metade daquilo que um moço Stand Up recebe hoje em apenas um show. Fiquei sabendo, sem querer, o valor da presença num evento do Fábio Lins e quase caí para trás. Ele merece esse valor. Não há em minha constatação nenhuma crítica ao Fábio Lins, só usei o exemplo do cache dele para mesurar e comparar com o que o Dedé, Mussa e Mauro ganhavam na época. Qualquer humorista merece ser bem remunerado. No capitalismo mede - se o valor pelo dinheiro. É assim, mesmo. Devia ter sido assim naquela época, em 70, mas não era, pronto.  

Como relatei em post anterior:
Dedé, Mussum, Zacarias e eu viajávamos de carro para fazer show pelo Brasil, principalmente pela região Sul, Sudeste e Centro - Oeste.

Essa é uma das muitas histórias pelas quais passei ao lado dos três Trapalhões.

Uma noite, em direção à Minas Gerais, na perigosa Rodovia Fernão Dias, aconteceu um dos pneus do carro do Dedé, que estavam carecas, (iria comprar novos com o cache do final de semana) estourar. Pediram ao Mauro para ficar comigo no carro e os dois, Mussa e Dedé desceram e trocaram rapidamente. 
Dedé voltou para o carro arrancando sobrancelha, pelos do nariz, costume (tricotilomania) que tinha quando ficava muito chateado. O Mauro, em sua sensibilidade disse:
- Calma, Dedé, logo você vai ter seus pneus novos.
Dedé deu um sorrisinho amarelo para o Mauro. Vi Mussum bater no volante e interpretei como gesto de revolta. 
Mais alguns quilômetros naquela rodovia erma e escura, sem nenhum posto para consertar o pneu furado, rodando devagar por causa do estepe ruim, e ...PUM!
Lá se foi outro pneu. 

Houve silêncio no carro. 

Mussum olhou para o Dedé e disse: 
- Meu irmão, vamos parar um caminhão e levar o pneu pra consertar, é o jeito. Eu vou e você fica com o Mauro e a Carne de Peixe (Eu). 
Desceu rápido sem esperar resposta e fez sinal para um caminhão que passou direto em alta velocidade. 
Dedé olhava meio reflexivo para o Mussum na beira da estrada. Um negro alto, com camisa larga fora das calças e braços longos acenando feito maluco. Dedé desceu calmamente e eu ouvi:
- Negão, não vai dar certo.
- Uma hora algum caminhão para!
Mauro, ao meu lado, balançou a cabeça negativamente.
Se hoje em dia ainda há preconceito contra negros, imagine naquela época.
E, se hoje em dia, poucos parariam para um negro na beira da estrada, imagine....
Como Mussa insistia em ficar gesticulando na beira da estrada, o Dedé também gesticulava, meio desanimado.
Eu tentei descer do carro, levei uma bronca.
- Fica no carro, Carne de Peixe!
- Por que Mussum?
- Fala pra ela, Dedé. - Ele respondeu irritado.
- Nicole, volta pro carro e fica agachada.
- Não quero.
- Volta, Nicole! O que você acha que pode acontecer com uma loira de vestido curto na beira da estrada.
- Ah, tá.
Mauro me chamou para entrar no carro e eu obedeci. Dedé veio até nós.
- Uma loira e um negão na beira da estrada, ninguém vai parar! 
Mudou o tom de voz e se dirigiu ao Mauro. 
- Mauro, fala com o Mussa. 
Mauro desceu e foi falar com o desesperado e cheio de boa vontade, Mussum.
Enquanto isso, levei bronca:
- Tá maluca, Nicole! Não sabe dos perigos!
- Não pensei.
- Que que eu ia falar pra Dona Tereza?? Ta louca de descer? Deita aí e fica quietinha! Não deixe um só fio de seu cabelo branco aparecer, porra!
Resolvi não responder porque se o Dedé estava bravo comigo, então o caso era sério.
Mauro chamou o Dedé.  Mussum, que se recusou a entrar no carro, mas acatou a ponderação de Mauro, foi se esconder agachando atrás de uma moita.
Naqueles anos, as pessoas eram mais camaradas e imediatamente, um caminhoneiro parou e desceu. Tentei erguer a cabeça e dei de cara com os olhos bravos do Dedé e seu gesto brusco para que eu me abaixasse. Não desobedeci, abaixei.
O caminhoneiro desceu alegre:
- Ei Dedé, você por aqui? Nem acreditei quando vi você balançando os braços e o Mussum agachado no meio do mato. Diarreia Negão? Pensei, não é possível! Dedé e Mussum!!!
Ouvi a voz do Mussum cumprimentando o motorista e não aguentei a comichão de olhar sua expressão quando ele olhou o Dedé. Abaixei rindo e fiquei ouvindo a conversa.
- Esse é o Zacarias. Dedé apresentou.
- E não que é mesmo? Poxa, Zacarias, você é careca? Ninguém vai acreditar quando eu contar que encontrei os trapalhões na estrada. O que eu posso fazer por vocês? Nossa, adoro você, Negão.
- Negão é teu "passadis".  Brincou Mussum, que se incomodava em ser chamado assim por quem não fazia parte da trupe, mas que compreendia a inevitabilidade do apelido. 


TEM MUITO MAIS HISTÓRIAS A SEREM CONTADAS.
VOU CONTANDO DEVAGAR