quarta-feira, 28 de agosto de 2013

O TRAPALHÃO ZACARIAS DISFARÇADO

Voltando aos bons tempos em que viajei Brasil afora com os Trapalhões, Dedé, Mussum e Zacarias, antes deles irem para a Globo.

Sempre gostei de um costume antigo dos homens de se comunicarem através de assobios. Um assobia o outro responde e pronto, esta feita a comunicação. Parece algo que aproxima a brutalidade masculina à delicadeza dos pássaros. 
(Creio que tenha ficado gravado em minha memória a boa lembrança de quando éramos visitados pelo irmão de meu pai ou quando visitávamos a família de meu tio e, antes do encontro, um irmão assobiava e o outro respondia com o mesmo assobio longo, melancólico, bastante parecido com o canto do Jaó. Era o  momento que prenunciava a alegria do reencontro de dois irmãos que se amavam.)

Os Trapalhões tinham esse costume agradável. Eles se comunicavam, à distância, através do som de quatro silvos curtos e enérgicos.
Quando terminava algum show e nos separávamos na hora de ir embora, ouvia - se quatro curtos silvos e todo mundo sabia onde estava todo mundo.
Em geral, ao final de shows em circo, cada um saía por um local diferente, porque o assédio do público era inevitável e, se eles saíssem todos juntos, ninguém andava. Assim, saindo separadamente, dividia - se o assédio e era mais fácil acessar o carro. Quem chegasse primeiro no carro soltava os sonoros quatro assobios e os outros respondiam. Confesso que ficava frustrada porque era uma comunicação apenas deles e, definitivamente, meus lábios não sabiam como se dobrar para soltar o som.

Todas as vezes que fazíamos um show, Mauro tirava a peruca e a maquiagem de Zacarias e saía tranquilamente sem ser reconhecido, em geral eu ia ao seu lado,conversando tranquilamente. 

Enquanto isso: 

O Dedé sofria  o cerco histérico das mulheres que chegavam a arrancar sangue com arranhões impudicos e, enlouquecidas, passavam a mão em certos lugares de sua parte baixa. Era arriscado sair junto com ele, pois muitas meninas ficavam com ciúmes de qualquer mulher ao lado do mais bonito dos Trapalhões ou, pelo menos, do mais ajeitado, rsrs. Uma única vez, saí de um show ao seu lado e uma garota muito excitada e raivosa quase me deixou careca. Nunca mais me arrisquei ao lado do Dedé em saída de espetáculo.

O Mussum sofria o assédio de criançada, homens e senhorinhas. Ele era muito querido, mas as crianças sempre batiam em sua nuca e o chamavam de negão e ficavam tão felizes com sua presença que poderiam atropelar qualquer um que caminhasse ao seu lado. E, claro, havia aqueles guris espevitados, tipo hiperativo ou endiabrado, que conseguiam estar em dois lugares ao mesmo tempo. Subiam nas costas do Mussum ou paravam à sua frente, impedindo - o de caminhar.
Era uma loucura!

Como a simplicidade era costume dos três, jamais contrataram segurança, mesmo porque eles nem se incomodavam tanto com esse assédio. Davam boas risadas, comentando um ou outro incidente engraçado.

Certa vez, eu e Mauro saíamos tranquilamente através de uma brecha da lona do circo, vimos o Dedé em meio a uma roda de mulheres, sorrindo sem jeito, entregando "santinhos" com sua cara. 
- Coitado. - Eu disse - Olha lá o Mussum.
Mussum parecia ter um enxame de crianças sobre ele. 
E, um dos "capeta em forma de guri" gritava, perguntando onde estava o Zacarias.
Mauro, aliviado por não parecer nada com o Zacarias, sorriu cúmplice para mim.
Mas, o "capetinha" corria em volta do circo feito um ... um... capeta mesmo, procurando pelo Zacarias.
Aí, o guri deu de cara com a gente. Parou, olhou e nós seguimos fazendo pose de indiferentes. Então, o danadinho gritou:
- OLHA O ZACARIAS DISFARÇADO DE CARECA!!!!
E.... boom!!!
Todo mundo que cercava Dedé e Mussum se precipitaram para cima do Zacarias disfarçado de careca.
Eu andei rapidinho e consegui sair daquela roda de malucos, transbordando felicidades.

Encontrei Dedé e Mussum, sem ninguém ao lado, com cara de galhofa e rindo do "disfarce" do Mauro.

Quando conseguimos sair do circo, com a ajuda dos funcionários circenses, que praticamente arrastaram Zacarias para fora do "círculo de fogo" e zarpamos, rapidinho em direção à estrada, todos estavam às gargalhadas com a "capetice" do guri. 
A risada mais alta era a do Mussum. 
O Mauro não acreditava na esperteza do garoto que descobriu seu disfarce.
- Nunca pensei que alguém fosse me reconhecer sem a peruca e maquiagem, ainda mais no escuro.

A viagem seguiu alegre e cheia de risos.  E, ainda ríamos quando paramos num auto - posto para jantarmos.