sábado, 28 de setembro de 2013

Por que Não solto minha voz?

Tenho coisas atravessadas na garganta!

Queria mandar um monte de gente a m...., mas...
Não consigo. 
Não, não é por medo, nem porque engulo coisas. Quem me conhece sabe que não temo nada e nem engulo nada.
Então por que não solto  minha voz?
Porque não quero me igualar aos mesquinhos que atravessaram minha vida, meus sonhos, meus sentimentos.
Não quero ser cruel como eles foram.

Verdade é que todo mundo sofre crueldade e se não supera cai no abismo da mágoa improdutiva, da tristeza inútil, do ódio que amarga a boca e a alma e da vingança que tira o sossego de nossa felicidade e faz com que vivamos a infelicidade alheia.
Não, eu não sou assim. 
Não sou boazinha, mas não sou tola. Tenho tanta coisa boa ao meu redor. Tanta gente boa que amo e que me ama, tantos animais para cuidar.
E, 
não vou dar a oportunidade de outra pessoa determinar meus dias nublados ou ensolarados.
Eu faço a minha Bem aventurança. 
Eu faço o sol brilhar em meu caminho.

Todo mundo é perseguido, injuriado, sacaneado e agredido. Quem nunca foi? 
Tanta gente sofre ou sofreu mais do que eu.
Porém, eu tenho certeza de uma coisa
NUNCA sacaneei, persegui, injuriei nem agredi ninguém... Acho que é por isso que sou, simplesmente, feliz, desbocada, debochada e mando quem tem essas tristes metas na vida para o inferno dos invejosos. 

OLHA NA FOTO A MINHA  PREOCUPAÇÃO COM QUEM SE PREOCUPA EM FALAR MAL DE MINHA VIDA 






Foto by Gina Stocco 2013

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Eu e Walcyr Carrasco

Ano - 1984.
Era o auge de minha carreira. 

Decidi aprimorar meu trabalho, fazer algo para mostrar que eu sabia interpretar. 
Sabe, aquele refrão: Não sou apenas mais um rostinho bonito. - Era isso. 
Eu queria fazer teatro.
Ja tinha feito um infantil chamado "Bizim, o menino do espaço" e tinha gostado muito.

Conversei com minha irmã, Maria Antônia Puzzi, uma mulher extremamente competente e que produziu outros espetáculos com grandes atores como Bibi, Juca, Arlete Salles etc. e a convidei para produzir uma peça para mim. Eu tinha o patrocínio e ela a capacidade de administradora. Deu tudo certo.

 (Alguns anos depois, Maria Antônia enjoou do meio e, sem pestanejar, mudou para Londres, onde vive muito bem, obrigada, e se sente muito feliz em ter uma nova vida afastada da correria maluca que é a vida de uma produtora de teatro.) 

Imediatamente, ela chamou o Renato Scripilliti, um arquiteto simpaticíssimo e que nunca tinha feito um cenário de teatro, para ser nosso cenógrafo. Ele aceitou e sua vida se transformou num sucesso de competência na nova carreira.  

Também trouxe um grande ator, talentoso e competente para dirigir a Nicole, uma atriz estreante. Jacques Lagoa, mais que um diretor, foi meu professor. Ensinou quase tudo que eu ainda não sabia. Ele equilibrou meu tom de voz, ensinou - me a usar o corpo, mediu meus gestos e o mais importante, apresentou - me o melhor texto que li naqueles meses anteriores ao início do ensaio. 
- Nicole, leia esse texto de um excelente autor que precisa de uma oportunidade para estrear como dramaturgo. 
Eu li e Maria Antônia também.  A- ma- mos!
Girei o teclado do meu telefone moderníssimo e liguei para o Jacques.
- É essa a peça escolhida.
- Olha, ele é jornalista, mas tenho certeza que será um dos maiores autores de nosso país.
- Nome estranho o dele, né Jacques? Carrasco.
- Walcyr Carrasco.

No outro dia, conheci o rapaz de nome estranho. Bom, vamos dizer que ele, também, era meio estranho.Tipo CDF, o equivalente a nerd ou geek de hoje.
Óculos de lente e aro grossos, aliás, grossíssimos, que faziam suas pupilas ficarem meio perdidas no espaço.
Educado, fino e displicentemente elegante. Muito distante do sobrenome agressivo. 
Voz baixa, tímido. Um encanto de pessoa.
Acho que ele morava ali na Aclimação, não sei, mas me lembro que era num sobradinho típico paulistano, muito bem decorado para a década de 80. Dava para perceber que cada detalhe de seus objetos, móveis e as cores usadas, era algo muito pessoal. A simpatia por ele foi imediata, percebi no rapaz de óculos estranhos e sobrenome agressivo, um ar do interior misturado ao perfume requintado de cultura e inteligência.

Escolhemos um jovem e simpático moçoilo para fazer um dos personagens. O Jacques garantiu que, embora o moçoilo Ney Galvão fosse um estilista baiano e não ator, em pouco tempo ele faria um excelente trabalho. Jacques Lagoa apostou no Ney e deu certo. Ney se saiu muito bem. 
( Bom, foi por ter inventado um romance de mentira com o Ney para divulgação da peça, que fui perseguida pela ira de um outro estilista que rugiu maldosamente contra mim durante toda sua triste vida. Já perdoei... Mas, isso é outra história e é muito triste, como já mencionei

Walcyr assistiu a estreia de "O Terceiro Beijo" com toda a ansiedade de um estreante. 
SUCESSO. 
Seus olhinhos perdidos no espaço daquela lente descomunal, brilhavam de alegria sincera, espontânea e de realização. 
É divertido e emocionante lembrar o primeiro passo desse grande autor. 
Eu vi a emoção genuína e inédita naquele rosto tímido e reservado. 
Nessa época, eu era a famosa e ele, apenas, um estreante. 
Como a vida é maravilhosa e rica em agradáveis surpresas.
Como devemos respeitar as mãos frias de um estreante. 
Nunca sabemos o futuro. 

A peça O TERCEIRO BEIJO foi uma alegria só. 
Imaginem que o Paulo Autran foi nos assistir e me convidou para trabalhar com ele, no ano seguinte, em um clássico com versos alexandrinos de MOLIERE. 
Uma noite, após a peça, quase fui atropelada, na alameda Santos por um senhor gentil, de boa aparência e que viria a ser um grande político de nossa história e um grande amigo pessoal e pelo qual fui perdidamente apaixonada.

Muitas coisas boas tiveram início após O TERCEIRO BEIJO. 

Estive várias vezes com o autor, sempre reservado, sempre querido. 
Sua carreira decolou, merecidamente. 
Trabalhamos juntos, quase por coincidência, alguns anos depois. 
O Guga de Oliveira, irmão do Boni,  chamou- me para fazer a abertura de uma novela produzida por ele para o SBT, Cortina de Vidro, logo depois, assinei contrato para uma participação e foi aí que eu soube o nome do autor. Walcyr Carrasco. 
Fiquei muito feliz.

Quase "500" anos depois, encontrei Walcyr Carrasco, agora o famoso e bem sucedido autor global, na porta do Teatro Cultura. Ficamos conversando e, percebi que, apesar das mudanças externas, ele continuava o mesmo rapaz tímido de 84. Não mudara. Continuava o mesmo Walcyr, mas seus óculos haviam se aperfeiçoado com a tecnologia da incipiente década de 2000.

De vez em quando, falo com ele pelo FB, Twitter ou E- mail.
Nossa amizade continua.
Ele já falou super bem de mim em duas crônicas na sua página na Revista Época. 
Sabe a alegria que da quando você lê o seu nome citado positivamente numa das colunas mais lida do país, e, principalmente pela pessoa que você respeita e admira desde o século passado? 

Quantas boas recordações que eu tenho! 
Sou feliz por isso. 
Quanta gente interessante e importante cruzaram a minha vida!
Adoro saborear os detalhes que me fizeram feliz em algum lugar do passado.
Por isso, continuo saboreando todos os detalhes da minha realidade atual: gostando de gente, de bicho e de tudo aquilo que representa o tesouro que levamos conosco que são os nossos pensamentos tranquilos, nosso sorriso de lábio quando lembramos a vida cheia de Vida com o qual fomos presenteados.



segunda-feira, 9 de setembro de 2013

OUTRO CONTO DE TERROR. Culto e rico e ...maledicti.

Ele viajou para Sicília, precisamente à cidade de Ragusa, a fim de receber uma herança de uma parente que nem sabia que existia.
Acordara mal, frustrado, preferiria ter uma parente mais ao norte da Itália, não gostava muito do jeito caipira dos habitantes do sul. Arrogante e orgulhoso, só aceitara a incursão na ilha por causa dos bens herdados. Perdera uma pequena fortuna no Cassino de Monte Carlo e a herança inesperada vinha a calhar mas, intimamente, confessava o desprezo pelos matutos de dialeto confuso e hábitos simplórios.
Era um rapaz acostumado a frequentar ambientes requintados e desdenhava paysan. Em qualquer lugar do mundo em que estivesse, optava pela nata da sociedade, afinal era culto e rico. 
Médico importante, mais que um médico, ele era um cirurgião neurológico. É bem verdade que seu nome figurava na folha de pagamento de um hospital público de uma cidadezinha do interior da Paraíba, mas a realidade é que ele realizava cirurgias em vários hospitais do mundo, somente de pessoas importantes, escolhidas a dedo. Obviamente não realizava cirurgia em qualquer um que viesse ao seu encontro. Dava comichão encostar em gente pobre e feia. Ele podia e escolhia seus pacientes.

A visão do Castelo de Donnafugatta, através da janela da casa que alugara em Ragusa, não despertava nele nenhum tipo de apreciação artística. Orgulhava - se de seus conhecimentos arquitetônicos e o Castelo de Donnafugatta, além do nome horroroso, era bastante acanhado.
- Nada se salva nesta cidadezinha. - Rosnou contrariado - Vou assinar a papelada e sair daqui o mais rápido possível.

Tola esperança.

Ele não entendia porque a carta de notificação da herança estipulara sua ida sem advogado e sem acompanhante. Essa era a condição imposta pela testadora, a velha senhora sua parente, segundo o tabelião que o notificara. Era um testamento público, o que provavelmente atestava a incapacidade de ler e escrever de sua aparentada desconhecida.
- Agora seus Euros terão um destino mais importante.
Já caminhava em direção ao cartório da cidade, quando um arrepio escorreu pela sua espinha feito uma gota gelada. Estancou. Teve vontade de sair correndo daquela cidade, mas abanou a cabeça afastando pensamentos supersticiosos. Pensou nos Euros a receber e prosseguiu sob o sol mediterrâneo sem saber que andava em direção ao seu trágico e assombroso destino.  

Um pouco mais tarde, bem animado, soube que herdara milhares de Euros depositados num banco em Roma e uma grande propriedade em Ragusa, a qual pretendia vender sem demora, bem como, antiguidades raras descrita em uma vasta lista que o notário entregara juntamente com outros documentos.
A última condição para recebimento de todos os bens era visitar a casa sozinho e fazer uma oração em latim, escrita num velho papel, para a alma da falecida, na porta de entrada.
Ele tentou se esquivar da enfadonha tarefa, no entanto o notário deveria acompanha - lo e aguarda - lo na varanda, onde ouviria a prece proferida em alto e bom som.
Um sacrifício odiento para ele, mas não podia recusar a última vontade da velha, registrada como condição essenziale, sob pena de perder o direito ao espólio.
Maçante, no entanto, o valor do patrimônio valia o sacrifício. Aborrecido, aceitou recitar a oração em latim após o notário ameaçar fechar o pesado livro onde a vontade da velha fora anotada.
Ambos rumaram para a casa na Marina di Ragusa, as margens do Mar Mediterrâneo. O médico herdeiro impressionou - se com a beleza e o luxo do local. A casa imensa, banhada pelo sol, deixou - o maravilhado. Era muito além de suas expectativas. Sabia reconhecer algo elegante e caro.
Internamente, somou a cifra de milhares de euros que aquela mansão iria render, caso a vendesse. Respirou profundamente para conter o entusiasmo diante de tanta beleza, sofisticação e riqueza. No entanto, não demonstrou sua empolgação ao simples notário que o observava de canto de olho.
Pararam enfrente a belíssima porta de entrada que se abria direto para o Mar.
- La preghiera . - Disse o tabelião, apontando o papel.
O médico abriu - o e leu em voz alta - EGO tribuo meus animus. - Jogou o papel no chão e decidido complementou -  Eu entro só.
- Essa é a condição. - Falou sorrindo, de um jeito maligno, o homem alto, encurvado e de cabelo seboso.
O herdeiro sentiu outro arrepio percorrer sua espinha. Sentiu medo, muito medo, mais medo do que poderia imaginar que pudesse sentir.
Quase desistiu.
- Lei è spaventato?
O médico olhou com desprezo para o notário e entrou com seu peito inflado de arrogância.
Ao cruzar o pórtico da casa, sentiu - se tonto, nauseado. Quase desmaiou. A escuridão o envolveu e o frio cortante fazia tremer até seus ossos. Ao seu redor giravam imagens fantasmagóricas, esbranquecidas, de longos fios de cabelos velhos e esvoaçantes. O cheiro de coisa suja, pútrida, invadiu suas narinas como um golpe desferido brutalmente. Não teve tempo de se recuperar da repulsa e avistou uma velha sem dentes, imunda e recendendo a álcool e cebola olhando em seus olhos.
- Ego furtum tuum ánima .
A velha bruxa falou em latim, mas ele entendeu, embora nunca aprendera a língua morta.
- Roubar minha alma??? - Disse, numa voz sumida.
A mulher hedionda, de pele muito enrugada, parecia deslizar ao seu lado, enquanto entoava uma cantilena antiga; toda a cultura e riqueza do prepotente médico nada puderam contra a maldição expelida pela escura e odiosa boca absurdamente aberta daquela que se auto - denominava domine dominus maledixit fati.
Ele estava apavorado e enojado, porem não conseguia se mover. Seus músculos amolecidos não o obedeciam, sua boca pastosa expelia saliva abundantemente, mas iria piorar.
Quando terminou a cantilena, a velha colocou as mãos no alto da cabeça do rapaz, e grudou sua boca, que parecia ter se transformado em uma imensa sanguessuga, direto no ânus do atônito, enlanguescido e terrificado médico que sentindo uma dor infinita, percebeu que sua alma era morbidamente sugada através do orifício externo de seu reto.
Apesar das vistas embaçadas, enxergou a bruxa se transformando.
Era espantoso.
Com horror, gritou inutilmente ao ver que ela se transformara nele. Habitava seu corpo jovem e ria satisfeita.
O médico olhou para si mesmo e o que viu o deixou enlouquecido. Ele habitava o tênue e nojento corpo da velha.
Num átimo, a bruxa usando o corpo do médico, saiu lépida e renovada pelo pórtico frontal da casa, enquanto ele, amaldiçoado, ficaria ali eternamente preso a um corpo asqueroso e com o qual não podia se movimentar além dos limites do negrume assombroso ao redor. Tentou gritar novamente e um ronco surdo saiu de sua bocarra intumescida acordando as outras vítimas da bruxa. Milhares de espíritos, outrora cultos e ricos, estavam presos à sórdida escuridão que os envolveria para sempre.