segunda-feira, 9 de setembro de 2013

OUTRO CONTO DE TERROR. Culto e rico e ...maledicti.

Ele viajou para Sicília, precisamente à cidade de Ragusa, a fim de receber uma herança de uma parente que nem sabia que existia.
Acordara mal, frustrado, preferiria ter uma parente mais ao norte da Itália, não gostava muito do jeito caipira dos habitantes do sul. Arrogante e orgulhoso, só aceitara a incursão na ilha por causa dos bens herdados. Perdera uma pequena fortuna no Cassino de Monte Carlo e a herança inesperada vinha a calhar mas, intimamente, confessava o desprezo pelos matutos de dialeto confuso e hábitos simplórios.
Era um rapaz acostumado a frequentar ambientes requintados e desdenhava paysan. Em qualquer lugar do mundo em que estivesse, optava pela nata da sociedade, afinal era culto e rico. 
Médico importante, mais que um médico, ele era um cirurgião neurológico. É bem verdade que seu nome figurava na folha de pagamento de um hospital público de uma cidadezinha do interior da Paraíba, mas a realidade é que ele realizava cirurgias em vários hospitais do mundo, somente de pessoas importantes, escolhidas a dedo. Obviamente não realizava cirurgia em qualquer um que viesse ao seu encontro. Dava comichão encostar em gente pobre e feia. Ele podia e escolhia seus pacientes.

A visão do Castelo de Donnafugatta, através da janela da casa que alugara em Ragusa, não despertava nele nenhum tipo de apreciação artística. Orgulhava - se de seus conhecimentos arquitetônicos e o Castelo de Donnafugatta, além do nome horroroso, era bastante acanhado.
- Nada se salva nesta cidadezinha. - Rosnou contrariado - Vou assinar a papelada e sair daqui o mais rápido possível.

Tola esperança.

Ele não entendia porque a carta de notificação da herança estipulara sua ida sem advogado e sem acompanhante. Essa era a condição imposta pela testadora, a velha senhora sua parente, segundo o tabelião que o notificara. Era um testamento público, o que provavelmente atestava a incapacidade de ler e escrever de sua aparentada desconhecida.
- Agora seus Euros terão um destino mais importante.
Já caminhava em direção ao cartório da cidade, quando um arrepio escorreu pela sua espinha feito uma gota gelada. Estancou. Teve vontade de sair correndo daquela cidade, mas abanou a cabeça afastando pensamentos supersticiosos. Pensou nos Euros a receber e prosseguiu sob o sol mediterrâneo sem saber que andava em direção ao seu trágico e assombroso destino.  

Um pouco mais tarde, bem animado, soube que herdara milhares de Euros depositados num banco em Roma e uma grande propriedade em Ragusa, a qual pretendia vender sem demora, bem como, antiguidades raras descrita em uma vasta lista que o notário entregara juntamente com outros documentos.
A última condição para recebimento de todos os bens era visitar a casa sozinho e fazer uma oração em latim, escrita num velho papel, para a alma da falecida, na porta de entrada.
Ele tentou se esquivar da enfadonha tarefa, no entanto o notário deveria acompanha - lo e aguarda - lo na varanda, onde ouviria a prece proferida em alto e bom som.
Um sacrifício odiento para ele, mas não podia recusar a última vontade da velha, registrada como condição essenziale, sob pena de perder o direito ao espólio.
Maçante, no entanto, o valor do patrimônio valia o sacrifício. Aborrecido, aceitou recitar a oração em latim após o notário ameaçar fechar o pesado livro onde a vontade da velha fora anotada.
Ambos rumaram para a casa na Marina di Ragusa, as margens do Mar Mediterrâneo. O médico herdeiro impressionou - se com a beleza e o luxo do local. A casa imensa, banhada pelo sol, deixou - o maravilhado. Era muito além de suas expectativas. Sabia reconhecer algo elegante e caro.
Internamente, somou a cifra de milhares de euros que aquela mansão iria render, caso a vendesse. Respirou profundamente para conter o entusiasmo diante de tanta beleza, sofisticação e riqueza. No entanto, não demonstrou sua empolgação ao simples notário que o observava de canto de olho.
Pararam enfrente a belíssima porta de entrada que se abria direto para o Mar.
- La preghiera . - Disse o tabelião, apontando o papel.
O médico abriu - o e leu em voz alta - EGO tribuo meus animus. - Jogou o papel no chão e decidido complementou -  Eu entro só.
- Essa é a condição. - Falou sorrindo, de um jeito maligno, o homem alto, encurvado e de cabelo seboso.
O herdeiro sentiu outro arrepio percorrer sua espinha. Sentiu medo, muito medo, mais medo do que poderia imaginar que pudesse sentir.
Quase desistiu.
- Lei è spaventato?
O médico olhou com desprezo para o notário e entrou com seu peito inflado de arrogância.
Ao cruzar o pórtico da casa, sentiu - se tonto, nauseado. Quase desmaiou. A escuridão o envolveu e o frio cortante fazia tremer até seus ossos. Ao seu redor giravam imagens fantasmagóricas, esbranquecidas, de longos fios de cabelos velhos e esvoaçantes. O cheiro de coisa suja, pútrida, invadiu suas narinas como um golpe desferido brutalmente. Não teve tempo de se recuperar da repulsa e avistou uma velha sem dentes, imunda e recendendo a álcool e cebola olhando em seus olhos.
- Ego furtum tuum ánima .
A velha bruxa falou em latim, mas ele entendeu, embora nunca aprendera a língua morta.
- Roubar minha alma??? - Disse, numa voz sumida.
A mulher hedionda, de pele muito enrugada, parecia deslizar ao seu lado, enquanto entoava uma cantilena antiga; toda a cultura e riqueza do prepotente médico nada puderam contra a maldição expelida pela escura e odiosa boca absurdamente aberta daquela que se auto - denominava domine dominus maledixit fati.
Ele estava apavorado e enojado, porem não conseguia se mover. Seus músculos amolecidos não o obedeciam, sua boca pastosa expelia saliva abundantemente, mas iria piorar.
Quando terminou a cantilena, a velha colocou as mãos no alto da cabeça do rapaz, e grudou sua boca, que parecia ter se transformado em uma imensa sanguessuga, direto no ânus do atônito, enlanguescido e terrificado médico que sentindo uma dor infinita, percebeu que sua alma era morbidamente sugada através do orifício externo de seu reto.
Apesar das vistas embaçadas, enxergou a bruxa se transformando.
Era espantoso.
Com horror, gritou inutilmente ao ver que ela se transformara nele. Habitava seu corpo jovem e ria satisfeita.
O médico olhou para si mesmo e o que viu o deixou enlouquecido. Ele habitava o tênue e nojento corpo da velha.
Num átimo, a bruxa usando o corpo do médico, saiu lépida e renovada pelo pórtico frontal da casa, enquanto ele, amaldiçoado, ficaria ali eternamente preso a um corpo asqueroso e com o qual não podia se movimentar além dos limites do negrume assombroso ao redor. Tentou gritar novamente e um ronco surdo saiu de sua bocarra intumescida acordando as outras vítimas da bruxa. Milhares de espíritos, outrora cultos e ricos, estavam presos à sórdida escuridão que os envolveria para sempre.