segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Eu e Walcyr Carrasco

Ano - 1984.
Era o auge de minha carreira. 

Decidi aprimorar meu trabalho, fazer algo para mostrar que eu sabia interpretar. 
Sabe, aquele refrão: Não sou apenas mais um rostinho bonito. - Era isso. 
Eu queria fazer teatro.
Ja tinha feito um infantil chamado "Bizim, o menino do espaço" e tinha gostado muito.

Conversei com minha irmã, Maria Antônia Puzzi, uma mulher extremamente competente e que produziu outros espetáculos com grandes atores como Bibi, Juca, Arlete Salles etc. e a convidei para produzir uma peça para mim. Eu tinha o patrocínio e ela a capacidade de administradora. Deu tudo certo.

 (Alguns anos depois, Maria Antônia enjoou do meio e, sem pestanejar, mudou para Londres, onde vive muito bem, obrigada, e se sente muito feliz em ter uma nova vida afastada da correria maluca que é a vida de uma produtora de teatro.) 

Imediatamente, ela chamou o Renato Scripilliti, um arquiteto simpaticíssimo e que nunca tinha feito um cenário de teatro, para ser nosso cenógrafo. Ele aceitou e sua vida se transformou num sucesso de competência na nova carreira.  

Também trouxe um grande ator, talentoso e competente para dirigir a Nicole, uma atriz estreante. Jacques Lagoa, mais que um diretor, foi meu professor. Ensinou quase tudo que eu ainda não sabia. Ele equilibrou meu tom de voz, ensinou - me a usar o corpo, mediu meus gestos e o mais importante, apresentou - me o melhor texto que li naqueles meses anteriores ao início do ensaio. 
- Nicole, leia esse texto de um excelente autor que precisa de uma oportunidade para estrear como dramaturgo. 
Eu li e Maria Antônia também.  A- ma- mos!
Girei o teclado do meu telefone moderníssimo e liguei para o Jacques.
- É essa a peça escolhida.
- Olha, ele é jornalista, mas tenho certeza que será um dos maiores autores de nosso país.
- Nome estranho o dele, né Jacques? Carrasco.
- Walcyr Carrasco.

No outro dia, conheci o rapaz de nome estranho. Bom, vamos dizer que ele, também, era meio estranho.Tipo CDF, o equivalente a nerd ou geek de hoje.
Óculos de lente e aro grossos, aliás, grossíssimos, que faziam suas pupilas ficarem meio perdidas no espaço.
Educado, fino e displicentemente elegante. Muito distante do sobrenome agressivo. 
Voz baixa, tímido. Um encanto de pessoa.
Acho que ele morava ali na Aclimação, não sei, mas me lembro que era num sobradinho típico paulistano, muito bem decorado para a década de 80. Dava para perceber que cada detalhe de seus objetos, móveis e as cores usadas, era algo muito pessoal. A simpatia por ele foi imediata, percebi no rapaz de óculos estranhos e sobrenome agressivo, um ar do interior misturado ao perfume requintado de cultura e inteligência.

Escolhemos um jovem e simpático moçoilo para fazer um dos personagens. O Jacques garantiu que, embora o moçoilo Ney Galvão fosse um estilista baiano e não ator, em pouco tempo ele faria um excelente trabalho. Jacques Lagoa apostou no Ney e deu certo. Ney se saiu muito bem. 
( Bom, foi por ter inventado um romance de mentira com o Ney para divulgação da peça, que fui perseguida pela ira de um outro estilista que rugiu maldosamente contra mim durante toda sua triste vida. Já perdoei... Mas, isso é outra história e é muito triste, como já mencionei

Walcyr assistiu a estreia de "O Terceiro Beijo" com toda a ansiedade de um estreante. 
SUCESSO. 
Seus olhinhos perdidos no espaço daquela lente descomunal, brilhavam de alegria sincera, espontânea e de realização. 
É divertido e emocionante lembrar o primeiro passo desse grande autor. 
Eu vi a emoção genuína e inédita naquele rosto tímido e reservado. 
Nessa época, eu era a famosa e ele, apenas, um estreante. 
Como a vida é maravilhosa e rica em agradáveis surpresas.
Como devemos respeitar as mãos frias de um estreante. 
Nunca sabemos o futuro. 

A peça O TERCEIRO BEIJO foi uma alegria só. 
Imaginem que o Paulo Autran foi nos assistir e me convidou para trabalhar com ele, no ano seguinte, em um clássico com versos alexandrinos de MOLIERE. 
Uma noite, após a peça, quase fui atropelada, na alameda Santos por um senhor gentil, de boa aparência e que viria a ser um grande político de nossa história e um grande amigo pessoal e pelo qual fui perdidamente apaixonada.

Muitas coisas boas tiveram início após O TERCEIRO BEIJO. 

Estive várias vezes com o autor, sempre reservado, sempre querido. 
Sua carreira decolou, merecidamente. 
Trabalhamos juntos, quase por coincidência, alguns anos depois. 
O Guga de Oliveira, irmão do Boni,  chamou- me para fazer a abertura de uma novela produzida por ele para o SBT, Cortina de Vidro, logo depois, assinei contrato para uma participação e foi aí que eu soube o nome do autor. Walcyr Carrasco. 
Fiquei muito feliz.

Quase "500" anos depois, encontrei Walcyr Carrasco, agora o famoso e bem sucedido autor global, na porta do Teatro Cultura. Ficamos conversando e, percebi que, apesar das mudanças externas, ele continuava o mesmo rapaz tímido de 84. Não mudara. Continuava o mesmo Walcyr, mas seus óculos haviam se aperfeiçoado com a tecnologia da incipiente década de 2000.

De vez em quando, falo com ele pelo FB, Twitter ou E- mail.
Nossa amizade continua.
Ele já falou super bem de mim em duas crônicas na sua página na Revista Época. 
Sabe a alegria que da quando você lê o seu nome citado positivamente numa das colunas mais lida do país, e, principalmente pela pessoa que você respeita e admira desde o século passado? 

Quantas boas recordações que eu tenho! 
Sou feliz por isso. 
Quanta gente interessante e importante cruzaram a minha vida!
Adoro saborear os detalhes que me fizeram feliz em algum lugar do passado.
Por isso, continuo saboreando todos os detalhes da minha realidade atual: gostando de gente, de bicho e de tudo aquilo que representa o tesouro que levamos conosco que são os nossos pensamentos tranquilos, nosso sorriso de lábio quando lembramos a vida cheia de Vida com o qual fomos presenteados.