segunda-feira, 20 de junho de 2016

Quando o medo vem...


O medo vem quando nós estamos no escuro e o que era objeto na claridade, começa a ter vida.
Quantas noites, na casa de tábuas em que morei no Paraná, via a cadeira do quarto crescer e assumir formas humanas, a lamparina encima do caibro emitindo uma luz, de cheiro queimado de querosene, lambendo a parede e desenhando cenas grotescas de monstros, ao estilo de Fuseli, e, quando sentia a solidão da noite, povoada de gritos de animais, criquilar de grilos desesperados, o coro soturno de coaxar de sapos e incontáveis sons noturnos abissais, eu colocava a mão na cabeça e soltava um gemido baixo e angustioso, talvez Edvard Munch tenha retratado esse desespero bem antes de meu nascimento.
Nessa tormenta noturna, eu conseguia apenas emitir uma palavra, quase um sopro:
Mãe. 
Como um passe de mágica, ela aparecia na porta de meu quarto e, as vezes, dormia ali mesmo, em outras, me levava para sua cama ou então rezava uma Ave Maria que eu só ouvia até "bendita sois, vós, entre as mulheres..."
E, assim alvorecia no Paraná.
Cheiro de café, de chá mate, de pão fresco... Eu levantava... bença pai, bença mãe.
Deus te abençoe. 
Eu tinha os dois a meu favor, ao meu lado. Eles me olhavam e era tudo muito bom, muito misturado com o café quente e cheiroso que eu não podia tomar. "Ataca o estômago da menina". A menina era eu. Por isso, o chá. Ela me cuidava. Eu a amava. Eu amava ele, mas, ela, ela era... ela era ela. Minha. Minha, tão minha.  Minha mão segurava a dela e eu sentia seu calor. 

Fui muito feliz ao seu lado. Continuo trazendo essa felicidade em meu coração.
Hoje, nas noites insones, em que as criações de Fusili ou Munch vêm me espreitar, eu as recebo com bom ânimo. Não tenho medo...
Ela me ensinou a tranquilidade da resiliência.