domingo, 1 de janeiro de 2017

Sonho Estranho.



Cansada, deitei e dormi, imediatamente e, tive um sonho meio estranho.
Senhores e senhoras, mais estudados e inteligentes que eu e que poderão me criticar, um aviso.
Não ouso interpretar sonhos. Meu pouco conhecimento sobre Jung, Freud e James Allan Hobson, não me permite aprofundamento nas simbologias primordiais, desejos reprimidos ou situar esses momentos oníricos como meros subprodutos da atividade cerebral durante a noite.
Acho mesmo, que sonho pode ser qualquer uma dessas definições ou nenhuma delas.
Por outro lado, não creio em oniromancia, embora como toda pessoa criada na religião judaico - cristã, sempre desconfio de algo sobrenatural em coisas que não entendo.
Opiniões, arquétipos e ciência de lado, eu quero, como qualquer humano acanhado, contar o que sonhei. Todo mundo gosta de contar o que sonhou na noite passada, eu também.
Mas, meus caros, estou fazendo rodeios demais. Vamos ao sonho, que já não me parece, assim, tão interessante aos ouvidos e olhos de algumas pessoas espertas. 
Tenham paciência e me ouçam, ou melhor, me leiam ou... Vamos em frente.
Gosta de animais?
Eu amo. Acho que por isso sonhei.
Sonhei que estava em um lindo lugar. Lugar cheio de uma luz, quase dourada se não fosse a intensidade da mesma. E, apesar da claridade, essa luz não machucava as retinas, ao contrário, acalmava.
Ouvi uma tropelia ao longe, muito longe. Fiquei receosa. Entremeio às, inacreditáveis e impossíveis brumas de luz, foi aparecendo muitos animais de variadas espécies de todas os biomas do globo terrestre. Girafas, coelhos, pássaros, ursos, como também cachorros, marsupiais, peixes abissais, répteis etc etc etc etc
Uma alegria imensa invadiu meu corpo astral, pois o de carne estava adormecido, confortavelmente, em minha cama ( não esqueçam que, relato um sonho). 
Este corpo astral ou imaginário ou projetado ou sei lá o quê, como eu disse, foi invadido por uma alegria imensa em poder ver muitos animais reunidos, mas algo me deixava melancólica, não uma simples melancolia, mas uma dor de tristeza profunda, tão profunda que atingiu meu cérebro e corpo mesmo após o despertar. No entanto, o sonho continuou.
Um rebanho de bovinos vinha vagarosamente, em silêncio, de cabeça baixa, estafados. 
A beleza inicial provocada pela quantidade de animais em um mesmo lugar foi se transformando em uma escuridão avermelhada de horror. 
Ursos negros extravasavam dor e bílis. Cobras esmagadas, abelhas caindo e desaparecendo, pássaros silenciosos, leões sem juba nem dignidade, gatos esfacelados, cães de olhos úmidos e humildes andavam em silêncio sem fixar em nenhum humano presente para não despertar a dor da culpa.
Animais em pedaços, aniquilados, esfomeados, torturados. Elefantes atormentados e macacos apáticos. Ratinhos brancos dopados, aves depenadas e um desfile inominável de animais sofridos e vilipendiados.
Mas, os bovinos não paravam de chegar, não paravam.
Diante da dor que sentia naquele instante e que ainda reflete dentro de mim, eu urrei feito um animal desesperado. Senti as dores de cada um deles e prostrei desalentada, decepcionada, vencida.
Luta inglória, luta inútil, luta derrotada. 
Acordei e não aceitei ter acordado. Queria sonhar e ver que aquilo era apenas uma mentira. Tentei sorrir e quis dizer em voz alta - isso não existe! - mas o nó na garganta travou as cordas vocais. Tentei levantar a cabeça e sentir a coroa de dono do mundo, mas ela já não estava mais lá.
Solucei. Engoli. Prometi amor e fidelidade, mas não prometi vitória. 
Em estupor, calei - me. Olhei para o lado e vi muitos sonhadores de olhos arregalados na tentativa de deter o holocausto, e em seus rostos, senti a dor, a desesperança e a continuação no embate honroso de uma luta infinda e vencida como a tentativa vã de preservar gelo no deserto.
Talvez, em algum lugar, os mártires de um mundo desconhecido de minhas razões sejam recompensados, mas parodiando Vinicius, pergunto - Escute, Amigo. Se foi pra desfazer, por que é que fez?
fotografia de Emma Powell