terça-feira, 25 de abril de 2017

À MULHER AMARGURADA.


MULHER AMARGURADA.


Essa é uma categoria bem povoada de mulheres. 
O termo é muito usado, por homens e mulheres, como ofensa cruel, quase brutal contra o sexo feminino.
 A Mulher Amargurada pode ter sido espezinhada pelo pai que nunca compreendeu o universo, além de sua valorizada masculinidade ou por falta de cultura ou falta de amor, mesmo. 
Possivelmente, a Amargurada é filha, neta e     bisneta de mulheres sofridas, incompreendidas e abafadas. Silenciosamente, aflitas. 
Obviamente, a Amargurada não teve uma vida fácil, pode ter sido abusada e até mesmo estuprada por amigos da família, parentes ou chefes. Medo de revelar, vergonha e vontade de esquecer geram a escuridão angustiada. O abismo das dores escondidas, afiadas, não cicatrizadas.
Castrada em suas ânsias infantis, podada em sua euforia de adolescente e subjugada na juventude. O "não pode" "é feio" "ridícula" "puta" "burra" perturba seus ouvidos como zumbido ininterrupto.
Por certo, a Amargurada não recebeu muito apoio de outras mulheres. 
Não foi compreendida. Ninguém nunca se colocou em seu lugar. Ignoraram suas dores e não aceitaram sua alegria. 
Andou em noites mentais povoadas de pesadelo, de sentimento frustrante ao ver a imagem de mulheres, supostamente mais bem sucedidas, bonitas e felizes. Sente um ímpeto em impedir nas outras, aquilo que devoraram nela, no seu passado, no seu futuro e no seu agora. 
Foram tantas dores, tanto absinto que foi obrigada a engolir, que ela nem percebeu a casca, agoniada, encapsulando - a.
Em sua maioria, a Amargurada é descuidada do corpo e critica o corpo alheio. Despreza outras mulheres, levando adiante o desprezo que a perseguiu no passado. Uma fuga de si mesma.

Por outro lado, a rosa murcha nega a própria sensibilidade, represa o amor, destrói relacionamentos e costuma se achar uma tola, um ser estranho, um incômodo, um nada. 

Mas...
De repente, do fundo de sua alma, ela ressurge. Ela, sempre, pode ressurgir.

É incrível e prazeroso presenciar o despertar dessas mulheres para sua beleza, exterior e interior, observar quando acendem a pira de seu amor próprio e o clarão iluminado, tal qual um raio, vem revelar sua importância íntima, sua importância no Universo. 
Nesse instante, ela entra em mutação e se transforma numa vencedora, bela, serena e decidida a não se ferir mais, a não ferir, a não permitir que a firam como no passado. Compreende as outras fêmeas, aceita suas alegrias e se torna competente em identificar e compreender a vida de outras iguais. Não fica inerte. Age!
Mulher de aço e ouro, forjada no fogo e auto superada no seu amor feminino, na gentileza da Leoa com filhotes e no voo da águia. 
Será vencedora em sua profissão, na parceria do casamento e na sabedoria nos dias de sua velhice.

O homem nem a mulher serão seus inimigos se você, mulher, se tornar amiga intima de você mesma, ter amor pela sua imagem física, moral e espiritual e, ser empática com as suas iguais.


  Serenidade. Decisão. Beleza. 
Amor próprio
FÊMEA E FORTE.

domingo, 9 de abril de 2017

Realidade ou pesadelo na Itália.


Há alguns anos, quando morava em Roma, experienciei uma situação terrível. 
Fui trancafiada num apartamento, em Tor Pignata, por um homem, cuja aparência, jamais demonstraria sua psicopatia. Ele não me agrediu nem me estuprou. Apenas, tentou sequestrar minha vida, minha liberdade. Era algo pertinente à doença dele. Usurpar e destruir a mulher. 
Eu era amiga da esposa dele há muitos anos. Ela era brasileira, ele, italiano. Convidaram e aceitei passar alguns dias com o casal. Nada aparentava o terror com qual eu iria me deparar. Os dois pareciam um casal normal, num belo apartamento. No entanto, quando fui visitar, por insistência dele, o local onde, com orgulho,  ele dizia manter um tipo de zoológico particular, percebi a sombra de sua loucura. Era um andar escuro, fechado, claustrofóbico, com muitas gaiolas aprisionando belos pássaros e muitos anfíbios. Partiu meu coração. Chorei pela tristeza e medo refletidos nos olhos daqueles pobres animais. Então, tomei uma atitude, resolvi sair da casa deles, ir para Londres e na volta, seguiria direto para meu apartamento em Ferentino, onde iria assumir meu emprego, já definido desde o Brasil. Precisava aprender melhor o idioma italiano, conhecer as leis italianas de proteção animal para, se possível, denuncia - lo. 
Na ida para a capital da Inglaterra, o casal insistiu e, deixei minhas malas pesadas em sua residência. Na volta, fui busca - las com a pretensão de partir imediatamente para Ferentino. 
Eles conversavam, conversavam e eu, nem sei porque, fui ficando meio apática, sonolenta. Cochilei no sofá. 
Acordei com o choro da minha amiga brasileira. Ela aparentava um desespero que jamais, havia visto naquela mulher. Uma ansiedade e medo tomou conta de mim. Tentava entender o que estava se passando. Ela falava coisas desconexas. Xingava o marido, os falecidos sogros, falava de sua desgraça na vida. Não sei como, consegui acalma - la. Não queria deixar minha amiga sozinha, por isso não fui para Ferentino naquele dia.
No dia seguinte, constatei uma dura realidade, que nunca imaginei passar. 
Um filme de terror. 
O apartamento estava fechado, as chaves tinham sumido e a mulher, completamente, desvairada. O marido italiano tinha ido para a campagna . Aos poucos, entendi que estava presa naquele local, sem meu celular, sem telefone, sem ter como pedir socorro, pois todos naquele prédio o temiam e eram seus parentes. 
No pior momento, mantenha a calma. - Pensei. 
Usei toda a paz que sempre busquei e mantive - me calma. Ele voltou. Percebi que estava irracional, seu olhar mudado. Pedi que abrisse a porta e ele ficou muito nervoso e ofendido. Fez um discurso sobre a grandeza perdida de Roma. Um discurso fascista, como eu nunca tinha ouvido antes. Parecia uma cópia de Mussolini falando. Metia medo, pois ele era muito parecido, fisicamente, com Il Duce
Saiu novamente e trancou a porta. 
Procurei em todos os cantos da casa a fim de encontrar uma cópia, mas nada. Tentar abrir com uma faca seria tentativa vã. A porta possuía seis trancas.
Pensei em pedir socorro pela janela, mas foi inútil. 
Enquanto isso, a mulher ficava ralando queijo, ralando queijo, ralando queijo e cortando pães. 
Não dormia nunca! 
Eu ficava com o coração partido por vê - la tão doente, mas não sabia como proceder. Precisava sair dali. 
Eu me sentia igual às lindas aves naquele andar escuro.
Minha vida no Brasil parecia um sonho distante. Irreal. 
Reagi a isso, mantendo a calma, mas meu corpo não me obedecia, tremia com a sensação de choques elétricos.
Foram poucos dias, mas pareceu uma eternidade. 
Certa noite, eu mostrei um bom humor que estava longe de sentir. Conversei com ele e entrei em sua paranoia, concordando com tudo o que ele falava e, citei várias passagens da vida nojenta de Mussolini como se fossem, extremamente, impecáveis, corretas, maravilhosas. 
Não deu outra. O homem se distraiu e esqueceu as chaves.
Fugi no meio da noite. 
Retomei minha vida, rapidamente para não sucumbir, e depois, aos poucos, refleti e busquei terapia.

Dessa experiência surreal, porém real, a fim de expurgar aqueles dias de tristes lembranças, escrevi uma saga de terror, ainda inédita, chamada: 

COMO POSSO MORIRE TANTE VOLTE? 



segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Nietzsche - Uma simples visão de iniciante."Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você." Friedrich Nietzsche


Nietzsche penetra em mim e eu sinto, mas falta muito para sair do sentido e cavalgar na razão.
Não o compreendo, mas me arrebata. Causa vertigem e ansiedade.
Consigo apenas escrever, de maneira muito simplista.

 "Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você."
ENTREI EM UM MUNDO ESTRANHO.

Na beira do abismo, sempre andei. E, certo dia ou noite, não sei ao certo, eu desafiei e olhei para baixo. 

OLHEI PARA O ABISMO.
Aos poucos, das trevas abissais, foram surgindo dois olhos sem brilho e nem cor. Apenas olhos que me olhavam de volta. Olhos inertes, sem vida, porém, perigosamente, mortais. 
O abismo me olhava de volta e estremeci.
QUEM ME OLHAVA LÁ DE DENTRO?
Era o abismo ou era eu?
Tentei desviar meu olhar para o utópico céu, eternamente azul e perfeito, mas algo se mexeu dentro das profundidades escuras e sibilantes. Tive de retornar as vistas ao poço de breu.
Havia vida no abismo? Sim, havia vida se esvaindo nas profundezas.
Que vida era essa? Era a minha? Era de estranhos? Era, apenas, vida desassossegada, impenetrável e vencida. 
Eram meus olhos sofridos e angustiados inquirindo minhas dúvidas, incertezas e crenças. Era eu mesma que me olhava, que me atraia para o fundo, para a anulação de mim mesma. Era a jovem que fez escolhas, que reprimira seus desejos, sua inteligência e sua vida por ser servil e obediente aos murmúrios externos. Era uma vida escravizada, padronizada. E, das sombras, cresceram monstros e eu os vi, reagi e lutei. Combati os monstros e suas sombras colossais. 
Por muito tempo, fixei minhas vistas no abismo, porém, por pouco tempo lutei contra as sombras de monstros. 
Fiquei inconsciente, o nada me invadiu, despertei com a descrença sutil batendo feito um martelo. Quis subir para o patamar mais alto. Vi a morte do meu passado covarde. Não me amedrontei. 
Sei que o abismo existe e eu existo, mas também não sei. Não me importo e me importo.
Retornei do abismo. Não sei se retornei. Sei que irei retornar. 
Os monstros existem, mas são dissipáveis. 
Eterna luta. Eterno retorno. Eterna vida.


Loucura ou realidade? O que é mais insano? 






sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

A VELHICE E A VERGONHA - breve reflexão



A velhice iguala os que foram jovens belos ou jovens feios.
O dinheiro promove uma vida mais saudável, óbvio, mas não é sobre isso que falo.
Por mais grana, boa genética e tratamentos rejuvenescedores, chega uma hora que a degradação física é inexorável. Retira tudo aquilo que foi belo no passado de aparências fisionômicas.


Não há Dorian Grey no retrato.

Se esse é o destino de todos, sem exceção, então porque sofrem, as pessoas?
A evolução invertida, do aspecto corporal e facial, não deveria incomodar tanto. Não deveria ser motivo de bullying por aqueles seguidores do mesmo longo e sinuoso caminho, que leva à porta da deterioração de carnes.

E a vergonha que segue as rugas e languidez dos tecidos corporais? Incompreensível, já que, por enquanto essa é a porta que o longo e sinuoso caminho desemboca.
É complicado ser vivo.


NADA É PERENE.



5 de agosto de 1962, 
Brentwood, Los Angeles, Califórnia, EUA


30 de setembro de 1955, 
Cholame, Califórnia, EUA

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Espumas flutuantes dissipadas.

Meia noite, metade da noite.
Ao ouvir o som do relógio marcando meia - noite, algo se move dentro de mim. Algo secreto, dolorido e aceitado, porque havia de vir e veio. Não veio antes nem depois da hora, veio na hora certa.
Chegou tão devagarinho e tão rápido que parece que sempre esteve aqui e eu nem percebi. Quando vi, embranqueci. (Esse fio já estava aqui, ontem? Nem percebi.)
Um dia brilhante, agradável, ensolarado, quando chega à noite traz cansaço e sensação de vida a ser e querer ser vivida. Mas é meia noite. Despedidas necessárias. As folhas do livro encontrando a capa dura de fechamento.
Não bate desespero, mas como disse aquele Millor: que pena.
O sorvete acabou. O salão da festa esta esvaziando. Que pena.
O amigo estava aqui mesmo, naquela mesa, onde ele sentava sempre. A mesa olha entristecida, já não se preocupa mais em ser receptiva e se quebra. Cai o copo, derruba a cerveja, esmaece o sol. E, então, chega à meia noite. Ao meio da noite, não ao meio dia. O meio dia faz tanto tempo e parece que foi agorinha mesmo, quase que da pra tocar nele, mas não da. Já foi tocado e só se toca uma vez.
Virá o alvorecer? Não. Que pena.
As espumas flutuantes, flutuam e se dissipam.
Quando se aprende a sambar, a escola está na dispersão. Que pena.
No melhor da festa, os amigos vão parando de dançar. A valsa não rodopia, o rock guarda a guitarra, definitivamente.
Vinícius, meu poeta, permita - me repetir sua pergunta:
- Escuta Amigo, se foi pra desfazer por que é que fez?


domingo, 1 de janeiro de 2017

Sonho Estranho.



Cansada, deitei e dormi, imediatamente e, tive um sonho meio estranho.
Senhores e senhoras, mais estudados e inteligentes que eu e que poderão me criticar, um aviso.
Não ouso interpretar sonhos. Meu pouco conhecimento sobre Jung, Freud e James Allan Hobson, não me permite aprofundamento nas simbologias primordiais, desejos reprimidos ou situar esses momentos oníricos como meros subprodutos da atividade cerebral durante a noite.
Acho mesmo, que sonho pode ser qualquer uma dessas definições ou nenhuma delas.
Por outro lado, não creio em oniromancia, embora como toda pessoa criada na religião judaico - cristã, sempre desconfio de algo sobrenatural em coisas que não entendo.
Opiniões, arquétipos e ciência de lado, eu quero, como qualquer humano acanhado, contar o que sonhei. Todo mundo gosta de contar o que sonhou na noite passada, eu também.
Mas, meus caros, estou fazendo rodeios demais. Vamos ao sonho, que já não me parece, assim, tão interessante aos ouvidos e olhos de algumas pessoas espertas. 
Tenham paciência e me ouçam, ou melhor, me leiam ou... Vamos em frente.
Gosta de animais?
Eu amo. Acho que por isso sonhei.
Sonhei que estava em um lindo lugar. Lugar cheio de uma luz, quase dourada se não fosse a intensidade da mesma. E, apesar da claridade, essa luz não machucava as retinas, ao contrário, acalmava.
Ouvi uma tropelia ao longe, muito longe. Fiquei receosa. Entremeio às, inacreditáveis e impossíveis brumas de luz, foi aparecendo muitos animais de variadas espécies de todas os biomas do globo terrestre. Girafas, coelhos, pássaros, ursos, como também cachorros, marsupiais, peixes abissais, répteis etc etc etc etc
Uma alegria imensa invadiu meu corpo astral, pois o de carne estava adormecido, confortavelmente, em minha cama ( não esqueçam que, relato um sonho). 
Este corpo astral ou imaginário ou projetado ou sei lá o quê, como eu disse, foi invadido por uma alegria imensa em poder ver muitos animais reunidos, mas algo me deixava melancólica, não uma simples melancolia, mas uma dor de tristeza profunda, tão profunda que atingiu meu cérebro e corpo mesmo após o despertar. No entanto, o sonho continuou.
Um rebanho de bovinos vinha vagarosamente, em silêncio, de cabeça baixa, estafados. 
A beleza inicial provocada pela quantidade de animais em um mesmo lugar foi se transformando em uma escuridão avermelhada de horror. 
Ursos negros extravasavam dor e bílis. Cobras esmagadas, abelhas caindo e desaparecendo, pássaros silenciosos, leões sem juba nem dignidade, gatos esfacelados, cães de olhos úmidos e humildes andavam em silêncio sem fixar em nenhum humano presente para não despertar a dor da culpa.
Animais em pedaços, aniquilados, esfomeados, torturados. Elefantes atormentados e macacos apáticos. Ratinhos brancos dopados, aves depenadas e um desfile inominável de animais sofridos e vilipendiados.
Mas, os bovinos não paravam de chegar, não paravam.
Diante da dor que sentia naquele instante e que ainda reflete dentro de mim, eu urrei feito um animal desesperado. Senti as dores de cada um deles e prostrei desalentada, decepcionada, vencida.
Luta inglória, luta inútil, luta derrotada. 
Acordei e não aceitei ter acordado. Queria sonhar e ver que aquilo era apenas uma mentira. Tentei sorrir e quis dizer em voz alta - isso não existe! - mas o nó na garganta travou as cordas vocais. Tentei levantar a cabeça e sentir a coroa de dono do mundo, mas ela já não estava mais lá.
Solucei. Engoli. Prometi amor e fidelidade, mas não prometi vitória. 
Em estupor, calei - me. Olhei para o lado e vi muitos sonhadores de olhos arregalados na tentativa de deter o holocausto, e em seus rostos, senti a dor, a desesperança e a continuação no embate honroso de uma luta infinda e vencida como a tentativa vã de preservar gelo no deserto.
Talvez, em algum lugar, os mártires de um mundo desconhecido de minhas razões sejam recompensados, mas parodiando Vinicius, pergunto - Escute, Amigo. Se foi pra desfazer, por que é que fez?
fotografia de Emma Powell